Dois deputados federais eleitos por São Paulo em 2026 ajudam a entender como o Congresso se renova e quais incentivos passam a orientar a representação política. É o que defende a jornalista e analista política Helen Braun, mestre em comunicação pela PUC-RS, em artigo de análise publicado pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (9). No texto, ela contrapõe a campanha regional de Paulo Serra (PSDB) à audiência nacional construída por Lucas Pavanato (PL), o candidato a deputado federal mais votado do estado.
Segundo a autora, há anos se repete o mesmo mantra, o de que é preciso renovar o Congresso. A pergunta que ela coloca é o que, exatamente, deve ser renovado: a composição etária, a origem social ou os vícios do ofício. Para tentar responder, Braun compara a trajetória dos dois eleitos.
UMA BASE FEITA DE PRESENÇA NA REGIÃO
Paulo Serra governou Santo André por dois mandatos, de 2017 a 2024, e encerrou a gestão com cerca de 80% de aprovação popular. Elegeu-se deputado federal com 132.866 votos, suficientes para ser o único representante do Grande ABC na Câmara. Sua campanha foi regional e tinha como eixo um plano diretor do Grande ABC, pensado para articular em Brasília projetos dos sete municípios da região. Do total de votos que recebeu, 78,3% vieram de Santo André.
UMA AUDIÊNCIA ESPALHADA POR TODO O ESTADO
Lucas Pavanato, vereador de São Paulo eleito em 2024 com 161 mil votos, multiplicou esse capital quase vinte vezes. Recebeu 3.038.438 votos para deputado federal, a maior votação já registrada para o cargo no estado. Construiu forte presença digital, com bandeiras como a crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF), o impeachment do ministro Alexandre de Moraes e pautas das chamadas guerras culturais. Para chegar a 80% dos votos dele, é preciso somar 98 municípios, e Pavanato teve votos nos 645 municípios paulistas.
Braun relaciona os dois perfis a conceitos de estudiosos da política. Serra se aproxima do que Richard Fenno chamou de "home style", a relação de confiança que o representante constrói com uma base geográfica pela presença, pela prestação de contas e pela explicação de sua atuação. Pavanato, de acordo com a autora, se aproxima do que Bernard Manin descreveu como democracia de audiência, uma representação personalizada em que o vínculo entre liderança e eleitor depende menos das antigas fidelidades partidárias e mais da comunicação direta, possibilidade que as redes sociais ampliaram.
O INCENTIVO DESCRITO PELO PRÓPRIO DEPUTADO
A analista admite que é tentador concluir que o segundo modelo troca proposta por espetáculo, mas lembra que o próprio Pavanato descreveu esse incentivo. Em entrevista à jornalista Patrícia Campos Mello, publicada pela Folha em setembro, ele afirmou que o que desperta o interesse do público é o confronto e são os discursos mais enfáticos. Na sequência, reconheceu que não consegue fazer uma entrega de mandato viralizar tanto quanto um debate com um adversário de esquerda.
Braun faz uma ressalva: isso não torna o eleitor de audiência menos legítimo que o de território. Representar pessoas dispersas em torno de uma causa comum também é uma forma válida de presença democrática, e um deputado federal tem responsabilidades que vão além do bairro ou da cidade.
A PERGUNTA SOBRE O INCENTIVO
Para a autora, a questão que fica diz respeito ao incentivo, e não ao eleitor. Se o Congresso se renovar cada vez mais pela lógica que o próprio Pavanato descreve, temas como hospital, transporte, emprego, segurança e escola, que dependem de negociação lenta e entrega mensurável, perdem terreno para o confronto, que se recicla a cada ciclo de engajamento.
Uma audiência nacional, conclui Braun, pode ser mantida por temas cuja força política depende menos da solução do problema do que de sua capacidade contínua de mobilização. Se a renovação do Congresso seguir essa lógica, pode se tornar mais rentável oferecer ao eleitor um inimigo para combater do que um problema concreto para resolver.
O texto é uma análise assinada e expressa a opinião da autora. O conteúdo original está disponível no site da Folha de S.Paulo.
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