As declarações e as propostas do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) apresentam contradições que expõem dúvidas sobre o ajuste fiscal que ele promete adotar em caso de vitória no segundo turno, segundo reportagem da Folha publicada nesta quinta-feira (8).
De acordo com o jornal, a equipe promete um ajuste fiscal duro, mas as medidas sinalizadas pelo candidato e por sua porta-voz econômica, Daniella Marques, alimentam divergências nos bastidores. A discordância é sobre a velocidade e o tamanho do plano no início do governo: um ajuste gradual ou um arrocho inspirado no adotado pelo presidente argentino Javier Milei, aproveitando que o primeiro turno garantiu maioria de direita no Congresso para aprovar PECs a partir de 2027.
O que Flávio diz
Flávio já afirmou que não fará ajuste em cima de aposentados ou da população de baixa renda e, em entrevista ao SBT News, que não pretende acabar com os pisos constitucionais da saúde e da educação, nem desvincular esses gastos ou o salário mínimo. Também sinalizou um "tesouraço" nos impostos, a desoneração da folha de pagamentos e a interrupção da reforma tributária para ajustes de rota, medidas que reduzem a arrecadação.
Depois de a Folha mostrar, nesta quinta, que a equipe estuda um pacote fiscal de cerca de 2% do PIB, ou R$ 250 bilhões, o candidato afirmou que, se eleito, manterá o reajuste das aposentadorias do INSS acima da inflação e disse que os aposentados não devem acreditar no que chamou de fake news do PT.
A conta que não fecha
A Folha lembra que a promessa apresentada ao mercado, de um ajuste de no mínimo 1,5% do PIB (mais de R$ 200 bilhões), exigiria medidas duras, como cortes em benefícios sociais e previdenciários, na contramão das promessas públicas do candidato. Até agora, a campanha fala oficialmente em corte de cargos e ministérios, venda de imóveis da União e combate a fraudes em benefícios, medidas que, segundo o jornal, não bastam para um ajuste dessa dimensão. Mesmo o corte de gastos tributários teria alcance limitado e enfrentaria resistência política.
Um assessor, que não quis se identificar, disse à Folha que o tamanho do ajuste dependerá de como Flávio sair das urnas e da chamada "agenda STF", que envolve negociações para eventual impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo ele, a estratégia é não detalhar a proposta antes do resultado do segundo turno, em 25 de outubro.
Resposta da campanha
Procurada pela Folha, a campanha afirmou em nota que a consolidação fiscal será feita pelo lado da despesa, com o fim de privilégios e penduricalhos, a racionalização de gastos ineficientes e a redução de impostos. A nota critica o governo do PT, que, segundo a campanha, aumenta impostos e gastos e deixa a dívida pública crescer.
Divisão interna e economistas
Segundo a reportagem, um grupo da campanha aposta na melhora do mercado, com queda de juros, para entregar boa parte do ajuste, começando por medidas moralizantes, como corte de cargos e fim de supersalários. Outro grupo tenta se distanciar da promessa de 1,5% do PIB, que criaria uma expectativa de cobrança futura.
Para o economista Bruno Carazza, da Fundação Dom Cabral, o programa é extremamente genérico e contraditório, feito para evitar pontos de atrito. Já Gesner Oliveira, ex-presidente do Cade e responsável pelas primeiras diretrizes do plano, avalia que, mesmo sem detalhes, o mercado está convencido de que a candidatura não vai tolerar o crescimento contínuo da dívida em relação ao PIB.
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