Felipe Gomes, 14 anos, tem 1,65 m de altura e pesa 117 quilos. Sua história, que ganhou destaque após a nova resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina), não é isolada. Em Santa Isabel (SP), profissionais da saúde já acompanham casos semelhantes entre jovens que enfrentam dificuldades para controlar o peso, mesmo com acompanhamento médico e psicológico. A recente flexibilização das regras para a cirurgia bariátrica em adolescentes reabre o debate sobre o avanço da obesidade infantojuvenil, tema que preocupa famílias e especialistas da região.
A nova norma, aprovada pelo CFM em maio, autoriza que adolescentes com idades entre 14 e 15 anos possam realizar a cirurgia bariátrica, desde que preencham os critérios clínicos já adotados para adultos. Isso inclui o índice de massa corporal (IMC) acima de 40, ou acima de 35 em casos de comorbidades como diabetes tipo 2, apneia do sono, hipertensão e doenças osteoarticulares.
A decisão levou em conta o crescimento alarmante dos casos de obesidade em faixas etárias cada vez mais jovens. Segundo a Federação Mundial da Obesidade, o número de crianças e adolescentes com obesidade no mundo saltou de 11 milhões em 1975 para 124 milhões em 2016. No Brasil, estima-se que uma em cada três crianças já esteja com sobrepeso ou obesidade. Projeções apontam que, até 2035, mais da metade da população entre 5 e 19 anos terá excesso de peso.
Profissionais da rede pública relatam que a obesidade em adolescentes tem se tornado cada vez mais frequente nos atendimentos básicos e nas escolas. Embora o município não possua um ambulatório específico voltado para cirurgia bariátrica em menores de idade, há acompanhamento multidisciplinar disponível por meio da atenção primária e dos encaminhamentos ao AME (Ambulatório Médico de Especialidades), em casos mais complexos.
Segundo especialistas, o procedimento cirúrgico não deve ser visto como solução rápida, mas como parte de um plano de longo prazo. O endocrinologista Bruno Geloneze, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, explica que a avaliação clínica precisa ser rigorosa, especialmente no que se refere à saúde emocional do adolescente. “Em casos de depressão profunda ou transtornos de ansiedade, é essencial tratar essas condições antes de pensar na cirurgia”, afirmou em recente seminário médico.
A relação entre obesidade e sofrimento psíquico na adolescência também é ressaltada por Adriano Segal, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP. Segundo ele, jovens obesos muitas vezes interiorizam o preconceito que sofrem, o que pode agravar quadros como depressão, transtorno dismórfico corporal e distúrbios alimentares. “É indispensável que a abordagem seja multidisciplinar e contínua, com acompanhamento psicológico, nutricional e médico antes e depois da cirurgia”, explica.
Na prática, a cirurgia bariátrica só deve ser indicada em situações-limite, quando todas as alternativas clínicas e comportamentais já foram esgotadas. A recomendação dos conselhos médicos é que adolescentes passem por pelo menos seis meses de acompanhamento especializado antes de serem considerados candidatos ao procedimento.
Para famílias e educadores, a nova regra traz um alerta: a obesidade precoce é um problema real, crescente e que precisa ser enfrentado com políticas públicas, informação e atenção contínua. A mudança na idade permitida para cirurgia pode ser uma porta para esperança em casos extremos, mas reforça, sobretudo, a urgência de se cuidar da saúde desde cedo.
