A cantora Pitty, de 49 anos, lançou o álbum "Pitty", o primeiro de músicas inéditas desde 2019. O disco tem 13 faixas, já está disponível nas plataformas digitais e, segundo a própria artista, condensa "dois anos de terapia". Ela afirma que só agora, depois de seis álbuns, sente ter feito o seu primeiro disco, e que o trabalho nasceu de angústias acumuladas, do fim de um casamento de 19 anos e de uma relação difícil com a mãe.
As declarações foram dadas à Folha de S.Paulo, em reportagem publicada na sexta-feira (16). O álbum é lançado pela gravadora Deck e, de acordo com a cantora, é o mais pop de sua trajetória.
UM DISCO QUE NASCEU DE UMA URGÊNCIA
Pitty conta que a vontade de desabafar veio antes da ideia de fazer música. Entre janeiro e fevereiro, ela rascunhou confissões de forma compulsiva, sem a banda e sem a equipe que a acompanhava em outros projetos. Depois de arriscar produzir as canções sozinha, com o violão e com a tecnologia hoje disponível para quem quer se autoproduzir, percebeu que tinha um álbum nas mãos.
Com as versões ainda inacabadas, ela procurou o produtor Rafael Ramos, descrito por ela como seu braço-direito, e finalizou o projeto. "Foi um faça você mesma. Por isso sinto essa coisa de primeiro disco", afirma a cantora.
O processo lembra o de sua estreia, há 23 anos, com "Admirável Chip Novo", escrito no quarto, só com a artista e o violão. Na época, Pitty ainda era Priscilla Novaes, morava em Salvador e queria fazer da música um trabalho.
DOIS ANOS DE MUDANÇAS DENTRO DO REPERTÓRIO
Segundo a cantora, tudo no álbum tem relação com os últimos dois anos. Nesse período, ela fez uma turnê para celebrar os 20 anos de "Admirável Chip Novo", seu disco mais elogiado, e anunciou o fim do casamento de 19 anos com o baterista Daniel Weksler, com quem tem uma filha.
Pitty diz que, antes, costumava revisitar coisas guardadas, porque escreve muito, e que desta vez o processo foi diferente. O repertório trata de um relacionamento que terminou mal, de uma amizade falsa, de desejo e da relação com a mãe.
AS FAIXAS QUE FALAM DE TÉRMINO, AMIZADE E DESEJO
Em "Álbum de Casamento", uma das faixas mais roqueiras, a cantora reflete sobre o que resta de uma relação acabada e fala em retomar a posse da própria autoestima. "Amiga" também parece fazer referência a um episódio da vida real ao tratar de uma amizade falsa, mas Pitty não costuma explicar suas composições. Ela diz preferir que cada pessoa tire suas conclusões e afirma que explicar "quebra a magia".
O disco abre com "Sobremesa", lançada um mês antes como aperitivo, que usa a analogia do doce para falar de uma relação mais próxima do desejo do que da paixão. O lado mais sensual também aparece em "Armadura".
"CUIDADA": A FAIXA MAIS MELANCÓLICA DO ÁLBUM
Entre as canções, Pitty detalha apenas uma. "Cuidada", a mais melancólica do disco, revê a relação dela com a mãe, que a cantora descreve como ruim. A letra fala em sentir-se abandonada em casa, em ter conversado pouco com a mãe e em ter recebido poucos abraços. No fim, a artista diz entender hoje que faltou cuidado à mãe.
"Essa letra é bem doída. Eu precisava falar sobre isso. Foram dois anos de terapia em dois meses", afirma Pitty.
O DISCO MAIS POP DA CARREIRA
O álbum "Pitty" é descrito como o mais pop do repertório da artista. Em músicas como "Pileque de Poeta" e "Sobriedade Seletiva", guitarras e baixos dividem espaço com melodias mais suaves, batidas marcadas e refrões pensados para apresentações ao vivo. As duas faixas têm produção de Felipe Vassão, que já trabalhou com Pabllo Vittar e Junior Lima.
A mudança foi proposital. Pitty diz que queria fazer um rock dançante, unindo a roda de pogo à pista de dança, para "deixar o corpo se movimentar, bater cabeça, gritar, sussurrar". O momento mais próximo da Pitty inconformada dos primeiros trabalhos está em "Desobediente", que retoma as guitarras ao falar de uma rebelde que não segue normas.
SEM RÓTULOS E SEM ATENDER EXPECTATIVAS
A cantora, que se lançou no começo dos anos 2000 falando de política, preconceito e pertencimento, em músicas como "Máscara", "Teto de Vidro" e "Admirável Chip Novo", afirma que recusa rótulos, antigos ou novos, e que vai seguir experimentando sons. Para ela, "tentar atender expectativas alheias é uma armadilha".
Questionada se ainda se considera transgressora, Pitty diz que hoje teme os adjetivos usados para defini-la. "Essas palavras se tornaram clichês. Não há estereótipo aqui. Sou uma mulher usando arte para se comunicar", declara. Sobre a cena do rock, ela avalia que há uma volta em curso, com bandas formadas por mulheres e meninas, e que o momento é de música incisiva, seja no rock ou no blues.
TURNÊ E ONDE OUVIR
Pitty não lançava um álbum de inéditas desde 2019. Ela afirma que, embora não tenha se afastado dos palcos, precisou dessa pausa nos estúdios para cuidar de outras frentes da carreira, como a direção de shows. É ela quem está à frente da nova turnê, que tem estreia em São Paulo, no Espaço Unimed, com show marcado para sábado (17), às 22h30. Depois, a agenda passa por Curitiba e Belo Horizonte.
O álbum "Pitty" está disponível nas plataformas digitais.
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