Um manifestante perdeu uma das mãos neste sábado (17) após a explosão de uma granada policial em Saint-Étienne, durante uma jornada de protestos que levou mais de meio milhão de pessoas às ruas da França, segundo a central sindical CGT. Ao menos 400 pessoas foram detidas até o fim da tarde, segundo o jornal britânico The Guardian.
A mobilização reuniu estudantes, sindicatos, agricultores, aposentados e remanescentes do movimento dos coletes amarelos. Houve confrontos em várias cidades, uso de gás lacrimogêneo e renovadas críticas à estratégia de manutenção da ordem do governo do presidente Emmanuel Macron. As informações são da RFI, com AFP, e foram publicadas pelo UOL.
O CASO DE SAINT-ÉTIENNE
O manifestante perdeu a mão após a explosão de uma granada policial, segundo uma fonte próxima da investigação. Até a noite deste sábado, as autoridades ainda não tinham detalhado as circunstâncias exatas do episódio, que é o caso mais grave conhecido do dia.
Em 5 de outubro, um estudante de 15 anos perdeu a mão esquerda durante um protesto estudantil em Lens, no norte da França, perto do liceu profissional Auguste-Béhal. A repetição de ferimentos graves associados à atuação policial reacende o debate sobre o uso de armamentos de dispersão em manifestações, tema recorrente no país desde os protestos dos coletes amarelos, entre 2018 e 2019.
NÚMEROS DA MOBILIZAÇÃO
Segundo a CGT, o maior sindicato da França, mais de 500 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país. O Ministério do Interior não divulgou um balanço nacional equivalente, mas reconheceu forte mobilização em várias cidades.
Até o fim da tarde, as autoridades contabilizavam ao menos 400 detenções, segundo o The Guardian. O governo também relatou episódios considerados graves em Marselha, Lyon e Paris.
VERSÃO DO GOVERNO E CRÍTICAS DA OPOSIÇÃO
O Ministério do Interior informou que houve manifestações expressivas em Lyon, Nantes e Rennes, com dezenas de milhares de pessoas. Segundo as autoridades, grupos black blocs, com centenas de integrantes, se misturaram a parte das marchas e promoveram ataques contra policiais, depredações de prédios públicos e tentativas de saques. O governo sustenta que organizações de ultraesquerda tiveram participação relevante nos episódios de violência.
Setores da esquerda francesa contestam essa leitura e acusam o governo de concentrar o debate nos incidentes violentos e de obscurecer a dimensão social dos protestos. O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, criticou a cobertura contínua das cenas de confronto e afirmou que dezenas de milhares de pessoas participaram pacificamente dos atos. Marine Tondelier, dirigente do partido Ecologistas, voltou a pedir uma revisão do método francês de manutenção da ordem e disse que a estratégia atual coloca em risco manifestantes e policiais.
PARIS: REVISTAS E PROIBIÇÕES ANTES DA SAÍDA DOS CORTEJOS
A resposta policial começou antes da saída dos principais cortejos. Desde a manhã, Paris estava sob forte vigilância: milhares de pessoas foram revistadas, dezenas de manifestantes foram detidos e agrupamentos que começavam a se formar foram bloqueados.
As autoridades proibiram manifestações em áreas sensíveis da capital, como os arredores do Palácio do Eliseu e da residência oficial do primeiro-ministro. Um cortejo não autorizado que seguia para o Eliseu foi interceptado e dispersado antes de chegar à área protegida.
Na Praça da República, principal ponto de concentração em Paris, as tensões aumentaram antes da saída da manifestação autorizada. Segundo a prefeitura de polícia, centenas de pessoas lançaram pedras e outros objetos contra os agentes, que responderam com gás lacrimogêneo e canhões de água. Vídeos mostraram manifestantes devolvendo bombas de gás lançadas pela polícia.
CONFRONTOS EM MARSELHA, LILLE, BORDEAUX E LYON
Em Marselha, dezenas de manifestantes romperam as portas da prefeitura e invadiram brevemente o saguão, derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa, e danificaram parte do mobiliário antes da intervenção policial. O prefeito, Benoît Payan, disse ter pedido explicações sobre a estratégia de segurança e afirmou ter obtido reforço policial após contato direto com Macron. Lojas foram danificadas e um posto da polícia municipal sofreu vandalismo.
Em Lille, manifestantes forçaram entradas da prefeitura, quebraram portas de vidro e invadiram parte do prédio. A tropa de choque entrou no edifício para verificar se ainda havia pessoas no interior, e os confrontos continuaram do lado de fora durante a tarde.
Em Bordeaux, um cortejo estimado pelas autoridades locais em cerca de 7 mil pessoas deixou o ponto de partida antes do horário e se tornou um dos focos de tensão. Houve arremesso de objetos, gás lacrimogêneo e choques entre policiais e grupos radicais.
Em Lyon, uma unidade do escritório de turismo da Praça Bellecour foi depredada e incendiada, e os bombeiros tiveram dificuldade para chegar ao local. Jovens encapuzados lançaram objetos e morteiros contra os policiais, que responderam com gás lacrimogêneo, granadas de dispersão e canhões de água.
O QUE LEVA AS PESSOAS ÀS RUAS
O aumento do custo de vida foi o principal fator de convocação dos protestos, ao lado dos preços da energia e dos combustíveis, da precarização de serviços públicos e de reivindicações estudantis por mais professores e melhores condições de ensino. Estudantes secundaristas e universitários protestam desde setembro.
A mobilização ocorre a menos de seis meses da eleição presidencial francesa. A estudante Lola, de 19 anos, disse em Paris que participa dos protestos por causa do custo de vida e das denúncias de violência e ferimentos contra estudantes que pedem mais professores e condições dignas de aprendizagem.
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