Quem precisou solicitar um carro por aplicativo em Santa Isabel nos últimos meses sentiu o impacto direto no bolso. Dados oficiais do IBGE confirmam a percepção das ruas: o custo das viagens por plataformas como Uber e 99 subiu impressionantes 56,08% em 2025. A alta, muito acima da inflação oficial do país, expõe uma crise de desequilíbrio no setor. Enquanto o passageiro paga tarifas cada vez mais salgadas para se deslocar entre os bairros da cidade ou ir até a capital, o motorista que está atrás do volante afirma não ter recebido sua fatia desse aumento.
A disparidade nos números é clara. Em setembro de 2024, o valor médio pago ao motorista por quilômetro rodado era de R$ 3,28. Um ano depois, em setembro de 2025, esse valor oscilou para R$ 3,38 — uma estagnação virtual, considerando os custos de manutenção do veículo e combustível. Ou seja: a receita extra gerada pelo aumento das tarifas foi absorvida, majoritariamente, pelas empresas de tecnologia.
A busca pelo lucro a qualquer custo
A mudança na política de preços não é acidental. Após anos operando no vermelho para conquistar mercado, gigantes do setor mudaram a estratégia para buscar rentabilidade agressiva. A Uber, por exemplo, só registrou seu primeiro lucro anual em 2023, após acumular um prejuízo histórico de US$ 31,5 bilhões desde 2014. Para reverter esse quadro, a era dos subsídios e promoções acabou.
Agora, a precificação é ditada por algoritmos complexos que consideram muito mais do que a distância e o tempo. Fatores como a chuva em Santa Isabel, a demanda em horários de pico e até o perfil do passageiro influenciam o valor final.
A "caixa-preta" dos descontos
A principal queixa da categoria envolve a falta de transparência. Motoristas relatam que, em muitas corridas, as plataformas chegam a reter mais de 50% do valor total pago pelo usuário. Antigamente, essa taxa girava em torno de 20% a 25%.
O algoritmo também joga contra a lógica de trabalho. Um exemplo prático citado por profissionais envolve viagens intermunicipais: o sistema paga um valor razoável na ida (cerca de R$ 2,00/km), mas derruba drasticamente o valor na volta (para R$ 1,10/km), pois "sabe" que o motorista precisa retornar à sua base e aceitará qualquer oferta. Estudos internacionais das universidades de Oxford e Columbia corroboram essa tese, apontando que a inteligência artificial tem sido usada para maximizar a margem da empresa em detrimento do rendimento do parceiro.
Brasília discute limites
O cenário de insatisfação generalizada empurrou o debate para o Congresso Nacional. O Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025 tenta colocar um freio na situação, propondo limitar a comissão das plataformas a 30% e exigir transparência nos cálculos.
As empresas, representadas pela Amobitec, reagem. Elas argumentam que qualquer teto para as taxas pode inviabilizar o modelo de negócios e encarecer ainda mais o serviço. O impasse permanece: de um lado, passageiros pagando caro; do outro, motoristas trabalhando mais para ganhar o mesmo; e no topo, as plataformas garantindo seus dividendos.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se