O resultado das eleições de 2026 merece uma análise que ultrapasse a contagem de votos, a composição das bancadas e a relação entre vencedores e derrotados. O primeiro turno, realizado em 4 de outubro, deixou sinais importantes sobre uma transformação que já vinha acontecendo na política brasileira, mas que parece ter adquirido uma dimensão ainda maior nesta disputa: a distância entre a receptividade que um candidato encontra nas ruas e a identificação que consegue despertar no eleitor. Para quem acompanhou o cotidiano das campanhas, uma das contradições mais interessantes foi perceber que ser bem recebido, cumprimentado, fotografado e até elogiado nem sempre significou conquistar votos na mesma proporção.
Durante décadas, o corpo a corpo foi considerado um dos pilares de qualquer candidatura competitiva. Visitar bairros, percorrer feiras, conversar com comerciantes, distribuir materiais impressos e reunir lideranças representava uma demonstração concreta de presença política. Essa estrutura continua tendo importância, sobretudo em determinadas regiões e segmentos do eleitorado. O problema é que a presença física, por si só, já não oferece a mesma segurança de antes. A cordialidade de uma conversa pode ser confundida com apoio, a receptividade pode produzir uma expectativa equivocada e o entusiasmo de quem acompanha uma agenda nem sempre representa a decisão de quem estará diante da urna.
Existe uma diferença considerável entre ser recebido e ser escolhido. O cidadão pode conversar educadamente com vários candidatos, aceitar um material de campanha, posar para uma fotografia e, ainda assim, já ter sua preferência definida por alguém que nunca encontrou pessoalmente. É possível que acompanhe essa pessoa diariamente pelo celular, conheça suas opiniões, identifique seu posicionamento e tenha desenvolvido uma relação de familiaridade construída exclusivamente no ambiente digital. Nesse caso, a proximidade não depende de um aperto de mão. Depende da percepção de que aquela figura pública representa algo com que ele se identifica.
Talvez esteja justamente aí uma das maiores mudanças na maneira de conquistar espaço político. O eleitor não procura apenas alguém que apresente propostas ou prometa melhorias para sua cidade. Uma parcela importante do público parece buscar representantes capazes de expressar, com clareza e intensidade, opiniões que ela própria compartilha, mas nem sempre manifesta publicamente. O posicionamento político passou a funcionar também como uma forma de reconhecimento pessoal. Quando uma liderança verbaliza determinada indignação, confronta uma ideia ou assume publicamente um lado, seus seguidores podem interpretar aquela manifestação como uma extensão das próprias convicções.
Não significa que saúde, educação, segurança, infraestrutura e desenvolvimento tenham perdido importância. Esses temas continuam diretamente ligados à vida das pessoas. O que mudou foi a maneira como parte do eleitorado se relaciona com eles. A apresentação técnica de uma proposta nem sempre produz o mesmo envolvimento que uma manifestação de opinião capaz de despertar identificação imediata. O conteúdo deixa de ser percebido apenas como informação política e passa a integrar uma relação emocional entre quem fala e quem acompanha.
É nesse ambiente que a comunicação institucional tradicional encontra dificuldades. Números, relatórios, entregas, investimentos e realizações continuam sendo fundamentais para avaliar uma administração ou um mandato, mas nem sempre conseguem despertar atenção em uma sociedade habituada a consumir conteúdos rápidos, pessoais e carregados de opinião. Enquanto algumas lideranças permanecem concentradas em divulgar o que fizeram, outras conquistam espaço mostrando o que pensam. A diferença não está necessariamente na qualidade da gestão ou na consistência das propostas, mas na capacidade de estabelecer uma identidade reconhecível.
As redes sociais modificaram também a percepção de espontaneidade. O cidadão passou a acompanhar vídeos aparentemente improvisados, manifestações diretas, reações a acontecimentos e posicionamentos sobre assuntos que movimentam o debate público. Essa linguagem aproxima porque reduz a distância simbólica entre representante e representado. O político deixa de aparecer apenas como uma autoridade cercada por protocolos e passa a ocupar, na tela do celular, um espaço semelhante ao de outras pessoas com quem o eleitor convive diariamente.
Naturalmente, nem toda espontaneidade é espontânea. Existe planejamento por trás de muitos conteúdos que parecem casuais, assim como existe uma estrutura profissional responsável por organizar narrativas aparentemente simples. A questão, porém, não está apenas na produção. Está na percepção. O eleitor pode rejeitar um discurso formal cuidadosamente elaborado e demonstrar enorme interesse por uma manifestação direta, mesmo quando ambas são resultado de decisões estratégicas. Na política contemporânea, a forma como uma mensagem é percebida pode ter tanta relevância quanto aquilo que ela efetivamente comunica.
Outro aspecto que merece atenção é o valor adquirido pelo confronto. Em um ambiente de crescente polarização, posicionar-se passou a representar, para determinados públicos, uma demonstração de autenticidade. A neutralidade pode ser interpretada como ausência de convicção, enquanto manifestações contundentes despertam identificação, aprovação ou rejeição. Isso ajuda a compreender por que discursos mais incisivos frequentemente alcançam grande repercussão, embora não signifique que agressividade, ofensas ou radicalização sejam requisitos para conquistar votos. Visibilidade e credibilidade continuam sendo coisas diferentes, e uma manifestação capaz de mobilizar apoiadores também pode afastar eleitores.
Essa dinâmica impõe uma reflexão sobre os investimentos realizados nas campanhas. Materiais gráficos, equipes de rua, bandeiras, estruturas visuais e grandes operações de mobilização ainda cumprem funções importantes. Demonstram organização, oferecem presença territorial e contribuem para tornar uma candidatura reconhecida. Entretanto, quantidade de material distribuído e volume de pessoas mobilizadas não devem ser confundidos com capacidade de convencimento. Uma campanha pode ocupar fisicamente uma cidade inteira sem conseguir ocupar um espaço significativo na memória política dos seus moradores.
O digital, por outro lado, permite uma convivência repetida. Uma pessoa pode acompanhar determinada liderança durante meses ou anos, observar suas reações, concordar com suas críticas, compartilhar opiniões e desenvolver uma sensação de proximidade sem jamais ter participado de uma reunião política. É uma relação diferente daquela estabelecida durante uma visita de poucos minutos. Mas também seria precipitado afirmar que as eleições foram decididas exclusivamente pelas redes sociais. Estrutura partidária, alianças, reputação, território, recursos, histórico eleitoral e, nas disputas proporcionais, o desempenho dos partidos e federações continuam influenciando os resultados. O digital ganhou centralidade, mas não eliminou a complexidade do processo eleitoral.
Ao observar esse cenário, identifico três condições distintas de força política que merecem atenção. A primeira está nas lideranças que possuem posicionamento público reconhecível e conseguem mobilizar pessoas pela identificação com suas ideias, independentemente de ocuparem cargos ou disporem de grandes estruturas. A segunda está naquelas que exercem o poder e contam com a visibilidade, a capacidade de realização e as relações institucionais decorrentes de suas funções. A terceira reúne as duas condições: lideranças que, além de uma trajetória administrativa ou parlamentar, conseguem desenvolver identidade política própria e estabelecer vínculos consistentes com seu público.
Essa última combinação representa uma vantagem competitiva importante, embora esteja longe de tornar alguém invencível. O exercício do poder também produz desgaste, cobranças e exposição a crises. Da mesma forma, um posicionamento digital forte pode ampliar rejeições. A capacidade de reunir estrutura e identificação pública pode fortalecer uma candidatura, mas o resultado continuará dependendo das características de cada disputa, da composição do eleitorado e da leitura correta do ambiente político.
O que considero particularmente relevante em 2026 é a necessidade de rever determinados critérios utilizados para avaliar a força de uma candidatura. Uma agenda cheia não significa necessariamente crescimento eleitoral. Um vídeo com milhões de visualizações não representa milhões de votos. Um candidato cercado por apoiadores pode estar falando apenas com pessoas que já o escolheram, enquanto outro, aparentemente menos presente nas ruas, consegue ampliar sua influência em ambientes que a observação tradicional não alcança. Confundir exposição com adesão talvez seja um dos erros mais caros de uma campanha.
Há ainda uma questão mais profunda. Durante muito tempo, a comunicação eleitoral foi organizada principalmente para apresentar o candidato ao cidadão. Agora, parte desse processo parece funcionar no sentido inverso: o eleitor procura, entre as figuras disponíveis, alguém em quem consiga reconhecer suas próprias ideias, insatisfações e expectativas. A política passa a disputar não apenas a preferência por propostas, mas também a representação de sentimentos. Isso não torna o debate necessariamente melhor. Pelo contrário, pode reduzir a atenção dedicada a programas de governo e favorecer discursos simplificados. Ainda assim, ignorar essa transformação significa deixar de compreender uma parcela importante do comportamento eleitoral contemporâneo.
As eleições de 2026 não decretaram o fim do corpo a corpo, dos materiais impressos ou da organização territorial. Muito menos provaram que basta dominar as redes sociais para vencer. O que elas colocam em discussão é a eficiência de estratégias construídas sobre pressupostos que já não podem ser aceitos sem questionamento. A presença continua importante, mas sua capacidade de produzir identificação precisa ser compreendida. A comunicação continua indispensável, mas sua intensidade não pode ser confundida com influência. E o posicionamento ganhou relevância sem que isso dispense coerência, trajetória ou credibilidade.
Talvez a maior lição deste primeiro turno seja reconhecer que o comportamento do eleitor evoluiu mais rapidamente do que muitos modelos tradicionais de campanha. Ainda existem estruturas preparadas para conquistar atenção em um ambiente no qual parte da decisão política é construída muito antes, em relações cotidianas mediadas por telas, opiniões e vínculos emocionais.
Entretanto, seria um erro transformar essa constatação em uma fórmula universal. Cada candidatura reúne condições próprias, enfrenta adversários diferentes e disputa a atenção de públicos que não respondem da mesma maneira aos mesmos estímulos. Há municípios em que a presença territorial conserva enorme influência, regiões em que a estrutura política é decisiva e ambientes nos quais a identidade digital alcança uma força extraordinária. A dificuldade está justamente em compreender como esses fatores se relacionam em cada realidade.
É nessa interpretação que reside, a meu ver, a diferença entre produzir uma campanha e compreender uma eleição. Ferramentas podem ser reproduzidas, formatos podem ser copiados e estruturas podem ser contratadas. A leitura do cenário, porém, exige experiência, sensibilidade política e capacidade de reconhecer aquilo que os números, as pesquisas e a aparente receptividade nem sempre conseguem revelar.
O primeiro turno deixou muitas respostas nas urnas, mas também abriu perguntas que merecem uma análise mais profunda. Para mim, uma delas se destaca: quantas candidaturas confundiram a atenção que receberam com a confiança que acreditavam ter conquistado?
O futuro da comunicação política certamente passará pelas redes sociais, mas não será definido apenas por quem publicar mais, investir mais ou falar mais alto. Será influenciado por quem conseguir compreender o que realmente aproxima o eleitor de uma liderança, sem confundir identificação com popularidade passageira.
Porque conhecer as ferramentas é relativamente simples. O verdadeiro desafio continua sendo compreender o eleitor. E essa leitura não se encontra pronta em nenhum manual de campanha.
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