O Isabelense - Notícias de Santa Isabel em tempo real!

Aguarde, carregando...

Domingo, 14 de Dezembro 2025

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Assessoria de imprensa em tempos de desinformação: entre fatos e narrativas

Entre a urgência da notícia e o ruído das redes, o jornalismo corporativo precisa decidir se quer visibilidade ou credibilidade.

Assessoria de imprensa em tempos de desinformação: entre fatos e narrativas
Freepik
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Vivemos em uma era em que a informação é instantânea — e a desinformação, ainda mais veloz. O que antes era filtrado, checado e contextualizado, agora circula em segundos, embalado por manchetes atraentes e compartilhamentos impulsivos. Nesse cenário, a assessoria de imprensa enfrenta um paradoxo inquietante: como comunicar com transparência em um ambiente que premia quem grita mais alto?

A função que nasceu para mediar fatos e construir pontes entre instituições, imprensa e público agora caminha sobre um terreno minado. O assessor se vê entre dois fogos — de um lado, a exigência do cliente por “controle de narrativa”; de outro, a expectativa da sociedade por clareza e verdade. Entre os fatos e as versões, cresce o risco de a comunicação se transformar em teatro.

Nos últimos anos, o papel da assessoria de imprensa mudou. Antes bastava emitir notas, redigir releases, agendar entrevistas. Hoje, é preciso gerenciar crises em tempo real, disputar espaço com influenciadores, lidar com desinformação e fake news que se espalham antes mesmo da apuração começar.

A tensão é evidente:

  • O público quer transparência, mas as organizações temem exposição.

  • O jornalista busca apurar, enquanto o assessor busca preservar.

  • As redes pedem velocidade, mas a credibilidade exige tempo.

Nesse jogo, as fronteiras entre fato e narrativa se confundem. O que deveria ser um trabalho de mediação se transforma, muitas vezes, em uma disputa de versões. E, no meio desse ruído, a informação verdadeira corre o risco de se perder.

Um exemplo claro é o das crises institucionais: quando uma denúncia surge, a primeira reação costuma ser tentar controlar o dano — antes mesmo de compreender o problema. Em vez de dialogar com fatos, muitos optam por criar “narrativas estratégicas” para amenizar o impacto. Mas em tempos de internet, o público não aceita meia-verdade: quer coerência, quer provas, quer postura.

Essa mudança de paradigma não afeta apenas a imprensa — atinge toda a lógica da comunicação pública. Quando a assessoria se torna ferramenta de manipulação e não de esclarecimento, o preço é alto:

  1. Desgaste de credibilidade institucional
    O público percebe quando há desconexão entre o discurso e a prática. A confiança, uma vez abalada, raramente volta ao ponto original.

  2. Perda de autoridade jornalística
    Ao priorizar narrativas que “vendem melhor” do que os fatos, dilui-se a credibilidade tanto do assessor quanto do veículo que reproduz o conteúdo.

  3. Desvalorização da escuta
    Em meio a respostas prontas e comunicados genéricos, as instituições deixam de ouvir a sociedade — e passam a falar apenas para si mesmas.

  4. Erosão da reputação a longo prazo
    A gestão de imagem baseada em controle pode até funcionar no curto prazo, mas mina a confiança que sustenta o diálogo público no futuro.

A consequência é paradoxal: quanto mais se tenta “controlar” o discurso, menos controle de fato se tem sobre ele. A transparência não é mais uma opção estratégica — é uma condição de sobrevivência reputacional.

Se a desinformação é rápida, a resposta precisa ser firme — e verdadeira. O papel da assessoria de imprensa precisa se reinventar, assumindo um compromisso ético com a clareza, não apenas com o cliente.

Alguns caminhos:

  • Retomar o valor do fato: colocar dados e verificações acima de versões convenientes.

  • Humanizar a comunicação: não basta “responder à imprensa”; é preciso conversar com o público, com empatia e contexto.

  • Formar porta-vozes preparados: quem fala em nome de uma instituição deve compreender que a verdade, cedo ou tarde, vem à tona.

  • Transparência ativa: comunicar não apenas quando há crise, mas também quando há construção — explicar, contextualizar, antecipar dúvidas.

  • Parceria com o jornalismo ético: entender que a imprensa livre não é inimiga, mas aliada no combate à desinformação.

A assessoria de imprensa que sobrevive à era da pós-verdade não é a que manipula bem as narrativas, e sim a que sustenta a coerência entre o que se diz e o que se faz.

A comunicação vive uma crise de confiança. E talvez a pergunta central não seja “como controlar a narrativa?”, mas “por que precisamos tanto controlá-la?”.

Num mundo em que todo discurso pode ser desmentido em segundos, talvez o verdadeiro poder esteja em não precisar mascarar nada.

Será que estamos preparados para comunicar com transparência, mesmo quando ela é desconfortável? Ou continuaremos tentando salvar imagens, enquanto perdemos a essência?

Entre silêncios e likes, fica o desafio: falar menos para convencer — e mais para compreender.

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp O Isabelense
Envie sua mensagem, vamos responder assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR