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Quinta-feira, 16 de Abril 2026

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Prefeituras que governam bem podem perder eleições se deixam outros contar a história

Boa gestão não garante reconhecimento público quando a comunicação não transforma decisões administrativas em compreensão coletiva da cidade

Prefeituras que governam bem podem perder eleições se deixam outros contar a história
IA / LMM
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Existe um silêncio discreto que acompanha muitas gestões públicas no Brasil — e ele costuma aparecer apenas quando já é tarde demais.

Prefeituras que trabalham, entregam obras, organizam serviços e mantêm a máquina pública funcionando acabam surpreendidas quando enfrentam rejeição eleitoral ou perda de apoio político.

Para quem está dentro da gestão, a sensação costuma ser a mesma: fizemos muito, mas a população não reconheceu.

Essa frase aparece com frequência em bastidores de governos municipais. Ela surge em conversas de gabinete, em reuniões internas e até em análises pós-eleitorais.

Mas raramente a pergunta mais importante é feita com a profundidade necessária.

Será que a cidade realmente entendeu o que foi feito?

Na política contemporânea, essa diferença parece sutil — mas ela muda tudo.

Durante muito tempo, acreditou-se que a boa gestão administrativa seria naturalmente percebida pela população. Se a cidade melhorasse, os cidadãos perceberiam. Se serviços fossem ampliados, as pessoas reconheceriam. Se obras fossem entregues, o resultado apareceria nas urnas.

Essa lógica funcionou em uma época em que a informação circulava de forma mais linear.

Hoje, o cenário é outro.

Vivemos em um ambiente onde a percepção pública não nasce apenas dos fatos. Ela nasce da narrativa construída em torno deles.

E narrativa não surge espontaneamente.

Ela é disputada.

Nas redes sociais, em grupos de mensagens, em comentários de bairro, em rodas de conversa e em páginas políticas locais, interpretações sobre a cidade são construídas o tempo todo.

A pergunta central deixa de ser apenas “o que foi feito”.

Passa a ser “o que as pessoas acreditam que foi feito”.

Essa diferença é desconfortável para quem governa, mas ela define boa parte do jogo político atual.

Porque obras não falam sozinhas.

Números administrativos não constroem narrativa por conta própria.

E relatórios de gestão raramente circulam fora dos limites da própria administração pública.

Se a gestão não traduz decisões em histórias compreensíveis para a população, alguém fará essa tradução no lugar dela.

E nem sempre de forma favorável.

É assim que algumas administrações tecnicamente eficientes acabam perdendo a capacidade de conduzir a percepção pública da cidade.

Elas governam.

Mas não explicam.

Executam.

Mas não traduzem.

Administram.

Mas não constroem narrativa.

Nesse vazio, outras versões começam a circular.

Pequenas falhas ganham destaque desproporcional. Problemas inevitáveis em qualquer gestão passam a ser percebidos como sinais de incompetência. Decisões técnicas são interpretadas como escolhas políticas questionáveis.

E quando a gestão percebe que essa percepção começou a se consolidar, muitas vezes já está tentando corrigir uma narrativa que nasceu fora dela.

Esse é um dos erros mais recorrentes da comunicação institucional.

A crença de que comunicar é apenas divulgar o que foi feito.

Divulgação não é narrativa.

Divulgação informa.

Narrativa explica.

Divulgação apresenta resultados.

Narrativa conecta decisões à vida das pessoas.

Quando uma gestão limita sua comunicação a publicações burocráticas — fotos de obras, agendas institucionais, releases administrativos — ela pode até cumprir a obrigação de informar.

Mas dificilmente constrói compreensão pública.

E sem compreensão pública, não há reconhecimento político consistente.

Isso não significa transformar comunicação pública em propaganda.

Existe uma diferença clara entre explicar decisões e tentar promover governos.

Explicar significa abrir contexto, mostrar prioridades, revelar critérios, antecipar dúvidas.

É ajudar a cidade a compreender não apenas o que foi feito, mas por que foi feito.

Quando isso acontece, a percepção pública tende a ser mais equilibrada.

A população pode discordar de escolhas, mas entende o caminho que está sendo seguido.

Quando isso não acontece, a gestão deixa um espaço perigoso aberto.

O espaço da interpretação livre.

E interpretação livre, na política, raramente permanece neutra.

O que começa como uma dúvida vira comentário. O comentário vira narrativa. A narrativa vira percepção coletiva.

E percepção coletiva, na política, pesa tanto quanto os fatos.

Talvez por isso algumas administrações descubram tarde demais que governar bem não é exatamente a mesma coisa que ser percebido como um bom governo.

Entre uma coisa e outra existe um campo invisível chamado comunicação pública.

Não como ferramenta de marketing.

Mas como instrumento de construção de sentido coletivo.

Cidades não são apenas administradas.

Elas são interpretadas.

A cada decisão de governo, a população tenta entender o que aquilo significa para sua rotina, para seu bairro, para o futuro da cidade.

Quando a gestão não participa dessa interpretação, ela entrega esse papel a outros.

E quem interpreta a cidade muitas vezes acaba influenciando como ela será julgada.

Talvez seja por isso que alguns governos que trabalham intensamente terminem mandatos com a sensação de injustiça.

A cidade mudou.

Mas a narrativa sobre essa mudança não foi construída.

No fim das contas, a política continua sendo menos sobre o que acontece dentro da prefeitura…

e mais sobre como a cidade entende o que acontece dentro dela.

E essa talvez seja uma das perguntas mais incômodas que toda gestão pública deveria se fazer antes de chegar ao último ano de mandato:

a cidade está vendo o que a prefeitura fez… ou está apenas ouvindo a versão de quem decidiu contar a história primeiro?

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

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