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Quarta-feira, 11 de Março 2026

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Transparência é transformar dados em informação útil que chega a quem vive a cidade

Quando o dado está disponível, mas ninguém entende, a comunicação falha mesmo sob o rótulo da legalidade

Transparência é transformar dados em informação útil que chega a quem vive a cidade
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Nunca tivemos acesso a tanta informação. Ela está nos sites oficiais, nos portais da transparência, nos diários, nos links, nos anexos. Está lá. Tecnicamente disponível. Legalmente publicada. Formalmente correta.

Ainda assim, a sensação de opacidade persiste.

Vivemos a era da sobreexposição digital, em que tudo é acessível e, ao mesmo tempo, pouco compreendido. Informações circulam em velocidade alta, mas entendimento exige tempo — e tempo virou artigo raro. Nesse cenário, muitas prefeituras acreditam que cumprir a obrigação legal de publicar equivale a comunicar. E não equivale.

Transparência não é presença digital. É compreensão pública. E entre uma coisa e outra existe um abismo que poucas gestões se dispõem a atravessar.

Quando cumprir a lei não significa cumprir o papel

Na prática, o discurso é conhecido: “está tudo no site”, “os dados são públicos”, “qualquer um pode acessar”. E é verdade. Mas incompleta.

A maior parte das informações públicas é escrita para técnicos, não para pessoas. Orçamentos, decretos, contratos, licitações, relatórios — tudo em linguagem especializada, fragmentada, pouco amigável. Publicar não resolve o problema da incompreensão. Apenas o transfere.

O contraste é evidente: informação disponível, população desinformada. Transparência formal, opacidade prática.

Quando a gestão se limita a disponibilizar dados sem mediação, ela cumpre a regra, mas falha na relação. E comunicação pública é, antes de tudo, relação.

A população não quer apenas saber que algo foi feito. Quer entender o que isso significa para sua vida cotidiana. Quanto custa. Por que foi feito. O que muda. O que melhora. O que permanece igual.

Sem essa ponte, o dado vira ruído. E ruído não constrói confiança.

O efeito colateral da transparência incompreensível

Existe um desgaste silencioso quando a informação não chega de forma clara. A população passa a desconfiar não porque há algo errado, mas porque não entende. E o que não se entende costuma gerar suspeita.

Esse é um ponto sensível: transparência mal comunicada pode produzir o efeito oposto ao esperado. Em vez de fortalecer a credibilidade, fragiliza. Em vez de aproximar, afasta.

Quando tudo parece excessivamente técnico, distante ou inacessível, cria-se a sensação de que a gestão fala uma língua própria — e não a língua da cidade. O cidadão deixa de se sentir parte do processo público e passa a se sentir excluído dele.

E exclusão, mesmo que não intencional, cobra seu preço.

Informação não traduzida vira privilégio

Há outro aspecto pouco discutido: quem consegue compreender informação técnica sem mediação? Um grupo restrito. Técnicos, especialistas, operadores do sistema.

Quando a gestão não traduz seus dados, acaba transformando informação pública em privilégio cognitivo. Está disponível, mas não acessível. Pública no papel, privada na prática.

Transparência real exige esforço ativo. Exige interpretação. Exige escolha de linguagem. Exige disposição para explicar mais de uma vez, de formas diferentes, em canais diferentes.

E isso não enfraquece a gestão. Pelo contrário: fortalece.

Caminhos possíveis: comunicar não é simplificar demais, é explicar melhor

Transformar informação técnica em comunicação compreensível não significa empobrecer o conteúdo. Significa torná-lo legível.

Alguns caminhos são menos tecnológicos e mais humanos:

— Contextualizar números, em vez de apenas apresentá-los.
— Explicar processos antes de divulgar resultados.
— Usar exemplos do cotidiano para traduzir decisões complexas.
— Reconhecer dúvidas legítimas, em vez de ignorá-las.

Comunicação pública eficiente não parte do que a gestão quer dizer, mas do que a população precisa entender.

E entender não é concordar automaticamente. É ter elementos para formar opinião. É sentir que há respeito na forma como a informação é oferecida.

Transparência como postura, não como checklist

Talvez o maior equívoco seja tratar transparência como obrigação burocrática, e não como valor relacional. Publicar dados é parte do processo, não o processo inteiro.

Transparência exige intenção. Exige compromisso com o entendimento coletivo. Exige disposição para sair da zona de conforto técnico e entrar no território da conversa pública.

Prefeituras que fazem isso não são as que publicam mais documentos, mas as que constroem mais clareza. Não são as que acumulam arquivos, mas as que acumulam confiança.

O que fica quando ninguém entende?

No fim, a pergunta não é se a informação está disponível, mas se ela está cumprindo seu papel social. Não é sobre quantidade de dados, mas sobre qualidade de compreensão.

Talvez transparência não seja sobre abrir tudo, mas sobre explicar o que importa.
Não sobre cumprir formalidades, mas sobre assumir responsabilidade comunicacional.

E fica a provocação, sem fechamento definitivo:

De que adianta a informação estar pública se ninguém entende?
Transparência para quem?
E quem está realmente se responsabilizando por fazer a cidade compreender suas próprias decisões?

Entre silêncios e links, talvez comunicar seja o maior ato de transparência que uma gestão pode assumir.

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

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