A desinformação eleitoral pode ter mudado de alvo no primeiro turno de 2026. Conteúdos que lançam suspeitas sobre as urnas perderam espaço, e cresceram os que fabricam sinais de apoio, rejeição ou vantagem de candidatos. É o que aponta um relatório da agência de checagem Lupa, divulgado nesta quarta-feira (14).
O QUE O RELATÓRIO MOSTRA
Falsos sinais de força política, como pesquisas inventadas e apoios que nunca existiram, apareceram em 17 das 80 frases verificadas em 2026, o equivalente a 21,3%. Em 2022, o índice era de 14,9%, e em 2018, de 15,4%.
No sentido inverso, alegações falsas sobre regras e procedimentos de votação caíram de 21,3% em 2022 para 3,8% neste ano. As que atacam a integridade do sistema eleitoral recuaram de 23,4% para 7,5%.
A BASE DO ESTUDO
O estudo reúne 310 frases analisadas pela Lupa de 16 de agosto a 4 de outubro, dia do primeiro turno: 230 em checagens e 80 em verificações. Nos períodos equivalentes, foram 367 registros em 2022 e 581 em 2018.
As checagens incluem declarações de políticos em debates e sabatinas. As verificações partem de dúvidas de leitores enviadas ao WhatsApp da agência, geralmente sobre conteúdos que viralizam nas redes e cuja origem costuma ser anônima. A comparação entre as narrativas usa as verificações: 26 em 2018, 47 em 2022 e 80 em 2026. A Lupa ressalta que os dados descrevem o conteúdo que selecionou, e não toda a desinformação que circulou nas campanhas.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Das verificações de 2026, 15 (18,8%) envolveram material produzido ou alterado por inteligência artificial, o que não havia sido identificado em 2018 e 2022. Há falas falsamente atribuídas a candidatos, fotos manipuladas e multidões inexistentes.
Entre os casos estão uma pesquisa inventada que dava vitória a Flávio Bolsonaro (PL) já no primeiro turno e imagens criadas por IA de uma multidão em ato pró-Lula (PT) no 7 de Setembro.
NA BOCA DOS CANDIDATOS
Nas checagens, 24,3% das frases verificadas em 2026 receberam a etiqueta "Falta contexto", praticamente o mesmo patamar das classificadas como falsas (24,8%). Em 2022, as primeiras eram 12,5%, e em 2018, 10,8%. A etiqueta "Falsa" indica informação comprovadamente incorreta. "Falta contexto" é usada quando os dados podem ser verdadeiros, mas omitem detalhes necessários para interpretá-los e levam o eleitor a conclusões equivocadas.
"Antes, a gente tinha uma mentira mais pura dos candidatos. Agora, a gente tem uma mentira um pouco mais trabalhada", disse o pesquisador da Lupa Maiquel Rosauro. Segundo ele, a mudança parte de algo verdadeiro, cujo contexto é alterado. Um exemplo citado foi a atribuição, por Flávio Bolsonaro, da queda da violência em Alagoas à chegada de Alfredo Gaspar (PL) à Secretaria de Segurança, embora os homicídios já caíssem antes. Outro foi a comparação feita por Lula entre a inflação de seu governo e a do governo de Jair Bolsonaro (PL), sem citar o impacto da pandemia.
Entre os cinco candidatos com frases checadas, Renan Santos (Missão) teve a maior proporção de falsas, 36,7% (11 de 30), seguido por Flávio Bolsonaro, com 33,3% (12 de 36), e Ronaldo Caiado (PSD), com 24,3% (9 de 37). Augusto Cury (Avante) teve 21,2% (7 de 33), e Lula, 21,1% (8 de 38). Os índices valem apenas para as falas checadas pela agência.
NOS ANOS ANTERIORES
No mesmo recorte, o então candidato Fernando Haddad (PT) teve a maior proporção de falsas em 2018, com 31,7%, e Jair Bolsonaro, em 2022, com 59,1%.
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