Os millennials, geração que hoje tem de pouco mais de 30 a cerca de 45 anos, ganham mais do que as gerações anteriores ganhavam na mesma idade em 29 de 32 países ricos analisados em um levantamento da revista britânica The Economist. Só na Itália, na Grécia e no Japão a renda real, corrigida pela inflação, é menor. Segundo a análise, o mercado de trabalho aquecido e a aposentadoria de trabalhadores mais velhos favorecem a ascensão profissional do grupo.
O texto foi publicado pela Folha de S.Paulo, sob licença, neste sábado (17).
DE GERAÇÃO EM DIFICULDADE A GERAÇÃO NO COMANDO
Na década de 2010, quando os millennials estavam na casa dos 20 anos, o cenário era outro. No pior momento da crise econômica da Grécia, o desemprego entre os jovens superava 50%. Os salários dos jovens britânicos praticamente não cresciam, e movimentos como o UK Uncut e o Occupy Wall Street, liderados por integrantes da geração, mostravam o grau de insatisfação com o status quo.
Hoje, segundo a análise, um número crescente de millennials ocupa cargos de poder nos negócios, na política e na cultura, e a proporção de proprietários de imóveis aumenta rapidamente.
RENDA É MAIOR EM 29 DOS 32 PAÍSES ANALISADOS
A comparação considera a renda real de cada geração na mesma idade. Em apenas três países os millennials estão em situação pior: Itália, Grécia e Japão.
Na Itália, os millennials de 30 anos ganhavam 10% menos do que a geração X (nascidos aproximadamente entre 1965 e 1979) ganhava nessa idade. Na Grécia, continuam atrás dos jovens adultos da década de 2000, antes da crise iniciada em 2009. No Japão, a renda familiar de uma pessoa de 35 anos em 2019 era inferior à de alguém da mesma idade em 1994.
Nos outros 29 países, a renda real dos millennials é superior à das gerações anteriores. Em alguns deles, como Austrália, Reino Unido e França, o progresso entre gerações desacelerou. Em muitos outros, dos Estados Unidos à Polônia, o ritmo de melhora se acelerou.
MILLENNIALS NO TOPO DOS NEGÓCIOS E DA TECNOLOGIA
Nos Estados Unidos, um millennial tem hoje a mesma probabilidade de ocupar um cargo de gestão que um integrante da geração X tinha na mesma idade. O crescimento do setor de tecnologia também enriqueceu a geração: os millennials representam quase um décimo dos bilionários americanos, mais que o dobro da participação da geração X em 2011.
A análise lembra ainda que millennials comandam empresas como Anthropic, OpenAI e Meta, três potências da inteligência artificial, e que integrantes da geração chefiam governos em países como Hungria, Países Baixos e Arábia Saudita, além da cidade de Nova York.
POR QUE A SITUAÇÃO MELHOROU: ECONOMIA E DEMOGRAFIA
Segundo a The Economist, a melhora tem duas causas principais. A primeira é econômica. A crise financeira de 2007-2009 atingiu os millennials com especial dureza, porque os funcionários jovens são os últimos a entrar e os primeiros a sair em uma recessão. Hoje, o mercado de trabalho do mundo rico está tão forte quanto jamais esteve.
A segunda é demográfica. Depois da crise, muitos baby boomers permaneceram no mercado de trabalho por mais alguns anos para recompor as reservas da aposentadoria, o que reduziu o número de cargos seniores para os jovens. A pandemia de covid-19 acelerou as aposentadorias: um estudo nos Estados Unidos identificou 3 milhões de "aposentados excedentes" até o fim de 2022. Como não há jovens trabalhadores em número suficiente para substituir quem sai, os millennials se beneficiam da escassez relativa de mão de obra.
MORADIA: A MAIOR FONTE DE QUEIXAS
Aos 30 anos, cerca de 40% dos millennials americanos tinham casa própria, proporção bem inferior à da geração X na mesma idade. Entre os mais velhos, hoje na casa dos 40 anos, a taxa de propriedade de imóveis é exatamente igual à da geração X. No Reino Unido, os millennials estavam 20 pontos percentuais atrás das gerações anteriores aos 30 anos e, aos 40, reduziram essa diferença pela metade, segundo o Institute for Fiscal Studies (IFS).
A análise atribui o avanço à melhora da economia, que permitiu poupar mais para a entrada de um imóvel, à flexibilização das exigências para financiamentos e ao tempo que muitos millennials com diploma universitário precisaram para reduzir dívidas estudantis. Os jovens mais ricos de hoje, com renda superior a US$ 200 mil por ano, têm taxas de propriedade bem menores que as de jovens com condição financeira equivalente em gerações anteriores.
Para a revista, a explicação está no estilo de vida: os millennials passaram mais tempo estudando e tendem a se casar mais tarde. Entre os homens americanos, a idade mediana no primeiro casamento é de 31 anos, ante 27 na década de 1990, o que adia a compra de uma casa para a família. Em parte porque as taxas de aquisição da casa própria estão aumentando, a geração acumula patrimônio mais rapidamente do que as anteriores na mesma idade.
O QUE PODE VIR A SEGUIR: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E HERANÇAS
A análise afirma que os millennials estão bem posicionados para o futuro. Se a inteligência artificial provocar disrupções no mercado de trabalho, os trabalhadores jovens voltarão a arcar com o peso maior. Nesse cenário, os motivos para preocupação seriam da geração Z, nascidos aproximadamente entre 1997 e 2012, cujas perspectivas de emprego podem piorar à medida que gestores millennials investem em tecnologias que substituem mão de obra.
Os millennials também estão prestes a receber heranças. A The Economist estima que os bens deixados por pessoas falecidas já equivalham, a cada ano, a cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em todo o mundo rico. O Institute for Fiscal Studies calcula que, em termos reais, a herança mediana das pessoas nascidas na Inglaterra na década de 1980 será de cerca de 136 mil euros (US$ 180 mil), ante 66 mil euros para as nascidas na década de 1960.
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