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Quarta-feira, 20 de Maio 2026

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Crise da Ypê expôs o custo da comunicação improvisada

Entre recuos, mensagens contraditórias e falta de orientação clara, a crise da Ypê revelou como improviso amplia insegurança e desgaste reputacional

Crise da Ypê expôs o custo da comunicação improvisada
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Em tempos de internet acelerada, as empresas descobriram uma verdade desconfortável: crises não se espalham apenas pelo problema em si — elas crescem pela forma como são comunicadas.

E a crise recente envolvendo a Ypê talvez seja um dos exemplos mais claros disso.

O que começou como uma situação delicada rapidamente ganhou proporções maiores porque a comunicação passou a transmitir algo que nenhuma marca deseja associar ao próprio nome: insegurança.

Na prática, o público assistiu a uma sequência de movimentos contraditórios. Primeiro, anúncios de reembolso. Depois, suspensão. Em seguida, contestação pública da decisão da Anvisa. Enquanto isso, consumidores buscavam respostas simples e não encontravam orientação clara sobre o que fazer.

O resultado foi previsível.

Mais dúvida.

Mais medo.

Mais desgaste.

E talvez o ponto mais importante seja justamente esse: em momentos de crise, as pessoas toleram problemas. O que elas têm dificuldade em tolerar é a sensação de desorganização.

Porque uma falha pode acontecer.

Mas quando a comunicação parece perdida, improvisada ou contraditória, a percepção muda. O consumidor deixa de enxergar apenas um incidente e começa a questionar a capacidade da empresa de controlar a situação.

A confiança balança.

E confiança, quando se rompe, raramente volta na mesma velocidade.

A internet amplifica isso de forma brutal. Hoje, uma decisão mal explicada não fica restrita a uma nota oficial. Ela vira vídeo, comentário, thread, print, meme e debate em tempo real.

As pessoas não analisam apenas o problema técnico. Elas observam postura.

Observam coerência.

Observam segurança.

E foi exatamente aí que a comunicação da crise começou a se fragilizar.

Quando uma empresa anuncia uma medida e depois volta atrás repetidamente, ela transmite indecisão. Quando entra em confronto público com órgãos reguladores em meio ao caos, transmite conflito. Quando demora para orientar o consumidor de maneira objetiva, transmite despreparo.

No meio disso tudo, quem está do outro lado só quer uma coisa: clareza.

“Posso usar o produto?”

“O que devo fazer agora?”

“Existe risco?”

“Como será resolvido?”

Em momentos delicados, o consumidor não espera discursos complexos. Espera direção.

E talvez muitas empresas ainda subestimem isso.

Existe uma tendência de tentar controlar danos priorizando defesa institucional antes de estabilizar percepção pública. Só que, em crises de consumo, percepção importa tanto quanto o fato técnico.

Às vezes até mais.

Porque a crise deixa de ser apenas operacional e passa a ser emocional.

A pessoa não está apenas avaliando um produto. Está avaliando se sente segurança naquela marca.

Por isso, comunicação de crise não pode funcionar no improviso.

Ela exige planejamento prévio, cenários simulados, definição de protocolos, treinamento de porta-voz e alinhamento interno rápido. Exige uma estrutura preparada para responder antes que o ruído ocupe o espaço.

E talvez uma das maiores lições do caso Ypê seja justamente essa: quando a empresa demora para organizar a própria narrativa, a internet organiza por ela.

E a internet raramente é generosa.

Outro ponto importante foi a sensação de desencontro entre empresa, reguladores e consumidores.

Quando uma marca entra em rota pública de colisão com órgãos reguladores em meio à crise, o debate técnico rapidamente vira insegurança coletiva. O consumidor comum não acompanha detalhes jurídicos ou administrativos. Ele acompanha sinais.

E o sinal que muitas vezes chega é simples: “ninguém parece alinhado”.

Isso fragiliza ainda mais a confiança.

Em paralelo, o SAC sobrecarregado e a dificuldade de resposta ampliaram o desgaste. Hoje, atendimento não é detalhe operacional — é parte central da reputação.

Quando a empresa some, demora ou responde mal, o consumidor preenche o vazio sozinho. E normalmente o faz através das redes sociais.

É ali que a percepção pública ganha forma.

Talvez por isso as melhores gestões de crise tenham algo em comum: simplicidade.

Orientações claras.

Postura firme.

Pouca contradição.

Muito alinhamento.

Porque, em situações críticas, excesso de discurso pode piorar a sensação de caos.

A comunicação mais eficiente costuma ser a mais compreensível.

No fim das contas, crises revelam muito mais sobre preparo do que sobre perfeição.

Nenhuma empresa está imune a problemas. O que diferencia uma crise controlada de um desastre reputacional é, muitas vezes, a capacidade de transmitir segurança enquanto resolve o problema.

E segurança não nasce de improviso.

Nasce de estratégia.

Talvez a grande pergunta que fique depois do caso Ypê seja essa: quantas empresas estão realmente preparadas para enfrentar uma crise… e quantas apenas acreditam que vão conseguir improvisar quando ela chegar?

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

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