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Quarta-feira, 22 de Julho 2026
Colunas/Jornada de Transformação

O luto não ensina a esquecer. Ensina uma nova forma de continuar amando

Com o tempo, a dor encontra descanso, mas o amor permanece vivo nas lembranças e na história que continua dentro de nós

O luto não ensina a esquecer. Ensina uma nova forma de continuar amando
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O luto é curioso

Existem dores que o tempo não apaga.

Ele apenas nos ensina uma nova forma de conviver com elas.

O luto é curioso. E, antes de qualquer coisa, profundamente doloroso.

Meu pai partiu há mais de quinze anos. Quinze anos sem ouvir sua voz — uma voz que, confesso, às vezes luto para não esquecer. Quinze anos sem seus abraços, sem sua presença física e sem aquelas conversas que pareciam capazes de resolver qualquer problema. De vez em quando, ele ainda aparece nos meus sonhos. E, por alguns instantes, tudo parece voltar ao lugar.

Lembro-me das primeiras semanas após sua partida. O sofrimento era constante. Muitas vezes eu pegava o celular automaticamente para ligar para ele. Era um gesto tão natural que meu cérebro ainda acreditava que ele atenderia do outro lado da linha. Só depois vinha a realidade. Não havia mais para quem ligar.

Naqueles primeiros meses, eu descobri que o luto não acontece apenas quando alguém morre. Ele acontece todas as vezes em que percebemos, novamente, que aquela pessoa não estará presente para viver mais um pedaço da nossa história.

Foi um caminho longo.

Precisei de ajuda. Passei por dias extremamente difíceis. Houve momentos em que a dor parecia ocupar todos os espaços da minha vida, como se eu jamais voltasse a experimentar a leveza. Naquela época, eu acreditava que sofrer era a única forma de continuar demonstrando o amor que sentia pelo meu pai.

Mas o luto também é curioso.

Os dias foram passando e, sem que eu percebesse, começaram a surgir pequenos intervalos de paz. Não eram muitos. Às vezes duravam apenas algumas horas. Em outras ocasiões, um dia inteiro.

E foi justamente isso que mais me assustou.

Lembro perfeitamente do primeiro dia em que percebi que havia passado horas sem sentir aquela dor que me acompanhava desde a perda. Em vez de sentir alívio, senti culpa.

Uma culpa enorme.

Como eu poderia não sofrer pelo meu pai?

Como eu poderia passar um dia inteiro sem aquela dor, se ele havia morrido?

Por um instante, a ausência do sofrimento pareceu uma traição ao amor que eu sempre senti por ele.

Hoje compreendo que não era.

Era apenas a minha mente fazendo aquilo que ela faz de melhor: aprendendo a sobreviver.

Durante muito tempo, a dor havia se tornado parte da minha identidade. Quando ela começou a diminuir, eu tive a impressão de que também estava perdendo uma parte da ligação que ainda mantinha com meu pai.

Mas não era o amor que estava indo embora.

Era apenas o sofrimento deixando de ocupar o lugar principal.

A saudade permanecia.

E permanece até hoje.

Porque o amor não termina quando a dor diminui.

Ele apenas encontra uma nova forma de existir.

Talvez seja por isso que o luto continue me surpreendendo.

Há poucos dias, mais de quinze anos depois da despedida, passei em frente a um lugar muito especial da nossa história. Um lugar onde vivemos momentos que guardo com carinho até hoje.

Sem perceber, por uma fração de segundo, surgiu um pensamento automático.

**"Vou ligar para o meu pai."**

Foi apenas um lampejo.

Tão rápido quanto inesperado.

No mesmo instante, a realidade voltou. Mas, curiosamente, junto com ela veio uma sensação diferente. Não era aquela dor insuportável dos primeiros anos. Era um calor no peito, como se, por um breve momento, ele tivesse caminhado ao meu lado outra vez.

Também veio a saudade.

Uma saudade enorme.

Mas já não era uma saudade que machucava.

Era uma saudade que lembrava.

Hoje compreendo que o luto nunca levou meu pai embora.

Ele apenas me ensinou que existem pessoas que deixam de caminhar ao nosso lado, mas jamais deixam de caminhar dentro de nós.

Depois de tantos anos, posso olhar para trás sem que a lembrança me despedace por dentro. Posso falar sobre ele sem que cada palavra seja acompanhada por lágrimas. Posso recordar nossas histórias com um sorriso que, durante muito tempo, achei que nunca mais voltaria a existir.

A saudade continua.

A ausência também.

Mas a dor já não ocupa o mesmo lugar.

Talvez seja essa a parte mais curiosa do luto.

Ele não nos ensina a esquecer.

Ele nos ensina que o amor pode continuar vivendo, mesmo quando a dor finalmente encontra descanso.

Reflexão Final

A mente nunca trabalha contra nós. Ela continua tentando nos proteger da melhor forma que aprendeu ao longo da vida. Quando compreendemos isso, deixamos de travar uma batalha contra nós mesmos e passamos a construir, com mais consciência e acolhimento, uma nova maneira de viver.

Willian Gomes
Especialista em Saúde Emocional

Onde a dor encontra acolhimento e a vida, transformação.

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WILLIAN GOMES

Publicado por:

WILLIAN GOMES

Willian Gomes dedica sua vida a acolher pessoas com dores emocionais. Já ajudou centenas a superarem ansiedade e depressão, oferecendo escuta, segurança e apoio para recomeçar com leveza e autenticidade.

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