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Quinta-feira, 16 de Abril 2026

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Prefeituras que comunicam muito e explicam pouco acabam governando no escuro

Publicações, vídeos e anúncios não garantem compreensão. Quando governos falam muito e explicam pouco, a cidade segue sem entender decisões que afetam sua rotina

Prefeituras que comunicam muito e explicam pouco acabam governando no escuro
IA / LMM
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Há uma característica curiosa na política contemporânea: nunca se falou tanto e, ainda assim, nunca foi tão comum que as pessoas digam que não entendem exatamente o que está acontecendo.

Prefeituras produzem vídeos diariamente. Publicam agendas, registros de reuniões, anúncios de obras, inaugurações, visitas técnicas, entregas simbólicas. As redes institucionais estão sempre ativas, e a comunicação parece acontecer em tempo integral.

À primeira vista, isso poderia ser interpretado como transparência.

Mas há uma diferença importante entre exposição e explicação.

Expor é mostrar que algo aconteceu.

Explicar é permitir que as pessoas compreendam o que aquilo significa.

Essa distinção, aparentemente simples, tem provocado um fenômeno curioso na comunicação pública: governos que comunicam o tempo todo, mas deixam a cidade sem entender o que realmente está sendo decidido.

Não por falta de informação.  
Mas por falta de sentido.

Em muitas administrações, a comunicação passou a ser organizada como um fluxo contínuo de registros. Fotos, vídeos curtos, posts rápidos, anúncios pontuais. Cada ação vira um conteúdo. Cada agenda vira uma publicação. Cada obra vira um registro visual.

O problema é que registros não constroem entendimento.

Eles apenas indicam que algo aconteceu.

A explicação — o porquê da decisão, o impacto daquela medida, a relação com problemas reais da cidade — muitas vezes fica ausente.

E quando o sentido das decisões não é construído publicamente, algo inevitável acontece: a interpretação passa a ser feita fora da gestão.

Moradores tentam entender uma mudança no trânsito, mas não sabem exatamente o motivo.

Uma obra aparece em determinado bairro, mas não se explica de onde veio a prioridade.

Uma decisão administrativa é anunciada, mas não se esclarece qual problema ela pretende resolver.

Nesse ambiente, a comunicação institucional continua ativa, mas a compreensão pública fica cada vez mais frágil.

É nesse ponto que muitas gestões começam a enfrentar uma sensação estranha.

A prefeitura fala constantemente.

Mas a cidade parece não entender.

Críticas surgem em torno de decisões que já foram divulgadas. Perguntas aparecem sobre ações que já foram anunciadas. E a administração se pergunta por que aquilo não foi compreendido.

A resposta, muitas vezes, está na própria lógica da comunicação.

Informar não é suficiente.

Explicar exige tempo, narrativa, contexto e disposição para tornar decisões administrativas inteligíveis para quem vive fora da estrutura de governo.

Isso nem sempre é confortável.

Explicar significa expor prioridades, admitir limitações, contextualizar escolhas e reconhecer conflitos de interesse que fazem parte de qualquer gestão pública.

É muito mais simples apenas registrar que algo foi feito.

Mas governar não é apenas fazer.

É permitir que a cidade entenda o que está sendo feito e por quê.

Quando essa dimensão da explicação desaparece, a comunicação pública se transforma em uma vitrine de atividades. Há movimento constante, mas pouco entendimento sobre o que realmente está em jogo.

Nesse cenário, decisões passam a ser avaliadas não pelo que foram pensadas para resolver, mas pela interpretação que cada grupo constrói a partir das informações disponíveis.

E quando a interpretação substitui a explicação, o governo começa a enfrentar um problema silencioso: perde o controle da narrativa sobre as próprias decisões.

Não porque deixou de comunicar.

Mas porque deixou de explicar.

A política contemporânea é profundamente marcada pela velocidade. Redes sociais exigem respostas rápidas, publicações constantes, presença permanente. Nesse ambiente, explicar pode parecer lento demais.

Só que a compreensão pública não nasce da velocidade.

Ela nasce da clareza.

E clareza exige disposição para transformar decisões técnicas em mensagens compreensíveis.

Sem isso, a gestão corre o risco de produzir comunicação todos os dias e, ainda assim, governar sem saber exatamente o que a cidade entendeu.

Talvez o maior paradoxo da comunicação pública atual esteja justamente aí.

Governos nunca produziram tanto conteúdo.

Mas a pergunta que permanece no ar é outra: quanto daquilo que é comunicado realmente se transforma em compreensão pública?

Porque, no fim das contas, governar também significa ser entendido.

E quando explicação deixa de acompanhar a comunicação, a cidade continua olhando para as decisões da gestão.

Mas passa a interpretá-las sozinha.

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LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

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