Uma rede de falsas plataformas de apostas está usando promessas de ganhos de até R$ 3 mil a partir de depósitos de apenas R$ 20 ou R$ 30 para atrair usuários e impedir posteriormente a retirada do dinheiro. A fraude foi identificada em uma investigação da empresa brasileira de cibersegurança ZenoX e utiliza sites que imitam casas de apostas, redes sociais e novas cobranças via Pix para manter as vítimas em um ciclo de pagamentos.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (7), a investigação, batizada de “Saque Fantasma”, encontrou plataformas programadas para apresentar ao usuário um saldo aparentemente disponível, mas criar obstáculos quando ele tenta retirar o dinheiro.
Em uma das bases analisadas, 68% das transações de depósito continuavam classificadas como pendentes e sem devolução. Em outra plataforma relacionada ao esquema, mais de 3.600 contas estavam armazenadas em uma base na qual nomes, emails e números de telefone dos usuários ficaram expostos.
PROMESSA COMEÇA COM PIX DE R$ 20 OU R$ 30
A estratégia identificada pelos pesquisadores utiliza valores iniciais baixos para atrair as vítimas.
Publicações e abordagens nas redes sociais prometem retornos que podem chegar a R$ 3 mil em troca de depósitos de R$ 20 ou R$ 30.
Em uma das abordagens encontradas no Instagram, por exemplo, o usuário era orientado a acessar um link, realizar o cadastro, depositar R$ 20 e posteriormente enviar o comprovante e sua chave Pix com a promessa de receber R$ 2 mil.
A investigação também encontrou uma conta no TikTok associada ao esquema que acumulava mais de 126 mil seguidores e 2,5 milhões de curtidas. Instagram, TikTok e Telegram estavam entre os canais utilizados para divulgação ou contato com usuários.
SITE IMITA UMA CASA DE APOSTAS
Depois do primeiro pagamento, o usuário encontra uma página desenvolvida para se parecer com uma plataforma convencional de apostas.
A interface apresenta jogos, valores em conta, histórico de operações e até uma área com supostos “últimos saques”, exibindo nomes parcialmente ocultos e quantias elevadas.
Esses elementos ajudam a construir uma aparência de funcionamento normal da plataforma.
O problema aparece quando o usuário tenta sacar o saldo apresentado pelo sistema.
Segundo a investigação, nesse momento a plataforma informa que é necessário realizar um novo pagamento de R$ 30 para liberar o dinheiro.
O usuário é direcionado a gerar um QR Code para fazer outro Pix. Entretanto, a análise técnica identificou que, em determinadas condições, o QR Code é fabricado pelo próprio navegador e o mecanismo responsável pela verificação não consegue confirmar o pagamento da taxa.
O saque, então, permanece registrado como pendente e um novo QR Code pode ser gerado, reiniciando o processo de cobrança.
68% DAS TRANSAÇÕES ANALISADAS ESTAVAM PENDENTES
Os pesquisadores conseguiram acessar informações internas de uma das plataformas e encontraram 415 contas de usuários e 231 transações de depósito.
Do total de depósitos analisados, 92% tinham valores entre R$ 20 e R$ 30, exatamente a faixa utilizada para atrair novos usuários.
Das 231 transações, 157 permaneciam pendentes, o equivalente a aproximadamente 68%.
O painel interno analisado pelos pesquisadores também apresentava R$ 107.519 em saldo acumulado entre as contas desde dezembro de 2025. O valor exibido no sistema, contudo, não significa necessariamente dinheiro efetivamente disponível para saque pelos usuários.
A plataforma também utilizava um mecanismo de bônus condicionado a depósito. Segundo a análise, o usuário recebia a informação de que precisava ter pelo menos R$ 30 em depósito aprovado para obter a bonificação.
MAIS DE 3.600 CONTAS TIVERAM DADOS EXPOSTOS
A investigação encontrou um problema adicional: a exposição de informações pessoais dos usuários.
Em uma plataforma identificada como NEWWBET7K, a base analisada reunia mais de 3.600 contas.
Os registros continham nomes, endereços de email e telefones.
A exposição aumenta o risco porque essas informações podem ser utilizadas posteriormente em novas abordagens fraudulentas direcionadas às próprias pessoas que já tiveram contato com as plataformas.
Os pesquisadores conseguiram analisar a estrutura interna porque encontraram credenciais de produção expostas no código público dos sites. Também foi identificada uma falha que permitia elevar os privilégios de uma conta durante o cadastro, possibilitando o acesso às informações armazenadas no sistema.
TRÊS DOMÍNIOS FORAM ASSOCIADOS À MESMA OPERAÇÃO
A ZenoX identificou três endereços como integrantes da mesma estrutura: MAXXBET7K, MAXBTT7K e NEWWBET7K.
Segundo os pesquisadores, os sites apresentam semelhanças na aplicação, infraestrutura, funcionamento e mecanismo utilizado para realizar as cobranças.
A análise também encontrou um canal de suporte no Telegram e características técnicas semelhantes entre os diferentes endereços.
A investigação associou as plataformas à mesma operação com base nessas evidências técnicas e no modo de funcionamento. A identidade civil das pessoas responsáveis pelos sites, entretanto, não foi confirmada pelo estudo.
COMO A FRAUDE SE DESENVOLVE
O mecanismo identificado pela investigação pode ser resumido em etapas.
Primeiro, a vítima encontra uma divulgação em uma rede social oferecendo a possibilidade de obter um retorno elevado com um depósito de pequeno valor.
Após acessar o endereço indicado, faz o cadastro e realiza o primeiro Pix.
A plataforma, então, apresenta uma interface semelhante à de uma casa de apostas e mostra valores que aparentam estar disponíveis na conta.
Quando o usuário solicita o saque, surge uma nova exigência: pagar uma taxa de R$ 30 para liberar o dinheiro.
Mesmo após essa nova tentativa de pagamento, o sistema não confirma a operação e o saque permanece pendente. A vítima pode ser induzida a gerar outro QR Code e realizar novos pagamentos na tentativa de receber o valor que aparece na tela.
É justamente nesse ponto que a ZenoX orienta o usuário a interromper qualquer novo pagamento.
O QUE FAZER SE JÁ ENVIOU DINHEIRO
A principal orientação da empresa de cibersegurança para quem já realizou um depósito é não enviar novos valores.
Cobranças apresentadas como “taxa de saque”, “verificação”, “depósito mínimo” ou qualquer outro pagamento necessário para liberar o saldo devem ser tratadas como continuação do esquema identificado.
Também é importante preservar as evidências antes que páginas, publicações, perfis ou conversas sejam apagados.
Entre os registros recomendados estão comprovantes dos Pix, com data, valor e chave utilizada; capturas das conversas mantidas com quem divulgou a plataforma; imagens das páginas e dos perfis; registros das transações apresentadas pelo site; além dos links e das publicações relacionadas à falsa bet.
A orientação também inclui denunciar o caso aos canais competentes e reportar às próprias redes sociais os perfis e conteúdos utilizados na divulgação.
NOVOS ENDEREÇOS PODEM SURGIR
A retirada de um site do ar não significa necessariamente o encerramento desse tipo de operação.
Segundo a investigação, os responsáveis podem trocar os domínios e as contas utilizadas nas redes sociais, mantendo o mesmo modelo de abordagem em novos endereços.
Por esse motivo, a recomendação é desconfiar especialmente de ofertas que associem depósitos muito pequenos a retornos financeiros desproporcionalmente elevados.
A aparência profissional de uma página, a existência de jogos, supostos históricos de saque, perfis com milhares de seguidores ou atendimento por redes sociais também não são suficientes para comprovar que uma plataforma é legítima.
No caso analisado pela ZenoX, justamente esses elementos eram utilizados para criar uma aparência de normalidade enquanto a programação impedia a conclusão dos saques e estimulava novas cobranças.
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