Quando um casal enfrenta dificuldades para engravidar, concentrar a investigação inicialmente apenas na mulher pode atrasar a identificação da causa da infertilidade e prolongar por anos a busca por uma gestação. Embora o fator masculino esteja presente em aproximadamente metade dos casos, homens ainda chegam mais tarde aos exames de fertilidade.
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, a infertilidade atinge entre 8% e 12% dos casais no mundo. A participação masculina ocorre em cerca de 50% dos casos, conforme artigo científico publicado na revista The Lancet em 2020 citado pela reportagem.
Apesar desses números, especialistas ouvidos pela Folha relatam que ainda recebem casais nos quais a mulher já passou por uma extensa sequência de exames enquanto o homem sequer iniciou uma avaliação específica de sua fertilidade.
A conduta considerada adequada pelos especialistas é diferente: diante da dificuldade para conseguir uma gravidez, homem e mulher devem ser investigados simultaneamente.
Por que o homem chega mais tarde?
Uma das explicações apresentadas é cultural.
As mulheres costumam manter acompanhamento ginecológico desde a adolescência, seja para consultas preventivas, saúde reprodutiva ou utilização de métodos contraceptivos. Quando surge uma dificuldade para engravidar, a investigação pode começar durante esse acompanhamento já estabelecido.
Entre os homens, essa rotina não ocorre necessariamente da mesma maneira. Muitos nunca passaram por uma avaliação urológica especificamente direcionada à fertilidade antes de tentarem ter filhos.
A consequência pode ser uma investigação desequilibrada e mais demorada.
A reportagem apresenta o caso de um casal que passou aproximadamente dois anos investigando exclusivamente possíveis causas femininas antes que o homem começasse a ser avaliado. Um teste específico identificou alteração na integridade genética dos espermatozoides. No total, transcorreram cerca de três anos entre o início da investigação e a gravidez.
Como é feita a investigação masculina?
O primeiro passo costuma ser o espermograma.
O exame analisa características como quantidade, movimentação e formato dos espermatozoides. Dependendo dos resultados e do histórico do paciente, a investigação pode avançar para exames hormonais, genéticos e de imagem, além de testes mais específicos.
Entre eles está a análise da fragmentação do DNA espermático, capaz de identificar determinadas alterações que podem não aparecer no espermograma convencional.
Diversas condições podem interferir na fertilidade masculina.
Uma das mais frequentes é a varicocele, caracterizada pela dilatação das veias dos testículos. A alteração pode aumentar a temperatura da região e prejudicar a produção dos espermatozoides.
Alterações hormonais e genéticas, infecções, obstruções, sequelas de caxumba com comprometimento dos testículos, alguns medicamentos, tratamentos contra o câncer e determinadas doenças também aparecem entre as possíveis causas.
Hábitos também podem interferir
O estilo de vida é outro ponto considerado durante a investigação.
Obesidade, tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, uso de drogas, sedentarismo, privação de sono e exposição profissional a determinadas substâncias tóxicas estão entre os fatores associados à piora da qualidade seminal citados pelos especialistas.
Outro alerta envolve o uso de testosterona e esteroides anabolizantes para fins estéticos ou ganho de massa muscular.
Essas substâncias podem interferir na produção hormonal natural dos testículos e reduzir significativamente a quantidade de espermatozoides. Em determinados casos, pode ocorrer azoospermia, condição caracterizada pela ausência de espermatozoides no sêmen.
Tratamento depende da causa
Não existe um único tratamento para a infertilidade masculina. A conduta depende do problema identificado.
Casos de varicocele, por exemplo, podem ter indicação cirúrgica. Alterações hormonais podem ser tratadas com medicamentos, enquanto infecções exigem abordagens específicas.
Mudanças de hábitos, como perda de peso, interrupção do tabagismo, redução do consumo de álcool e suspensão do uso de anabolizantes, também podem contribuir para melhorar a qualidade seminal em parte dos pacientes.
Quando uma gestação natural não é possível, técnicas de reprodução assistida, entre elas a fertilização in vitro, podem ser consideradas conforme a avaliação médica.
A principal orientação dos especialistas é evitar que a dificuldade para engravidar seja automaticamente tratada como uma questão feminina. Investigar o casal simultaneamente pode identificar mais cedo a origem do problema e evitar que meses ou anos sejam gastos procurando respostas em apenas um dos parceiros.

Comentários
Para comentar realize o login em sua conta!
Login Cadastre-se