Ansiedade: quando o corpo sabe antes de você
Entender os sintomas pode ser apenas o começo. Por trás de uma reação aparentemente inexplicável, pode existir uma história que o corpo aprendeu muito antes de conseguirmos colocá-la em palavras.
Quando falamos em ansiedade, é comum prestarmos atenção apenas àquilo que conseguimos perceber: o coração acelerado, a inquietação, a respiração ofegante, a dificuldade de relaxar, os pensamentos que não desacelera ou aquela sensação persistente de estar sempre esperando alguma coisa acontecer. São os sintomas. Mas o sintoma é apenas a parte mais visível de uma história que pode ter começado muito antes de ele aparecer.
E talvez seja justamente aí que muitas pessoas comecem a se perguntar: Por que estou sentindo tudo isso se, aparentemente, nada está acontecendo?
A resposta pode estar muito além do sintoma.
Quando falamos em ansiedade, é comum prestarmos atenção apenas àquilo que conseguimos perceber: O coração acelerado, a inquietação, a respiração ofegante, dificuldade de relaxar, os pensamentos que não desaceleram ou aquela sensação persistente de estar sempre esperando alguma coisa acontecer. Ou seja, o sintoma. Mas o sintoma é apenas a parte mais visível de uma história que pode ter começado muito antes de ele aparecer.
Nosso organismo possui sistemas extraordinários de proteção. Eles não foram criados para nos prejudicar, mas para nos manter vivos. Diante de uma ameaça, o corpo precisa ser capaz de reagir rapidamente, muitas vezes antes mesmo que tenhamos tempo de analisar racionalmente aquilo que está acontecendo.
Imagine, por exemplo, você com aproximadamente um ano de idade, uma tarde quente que sua mãe resolveu ter um momento especial com você. Naquele dia ela resolveu fazer algo diferente, que demonstraria todo amor, algo que ligaria à segurança e às pequenas descobertas que fazem parte dos primeiros anos de vida. Sua mãe montou um prato com algumas guloseimas e incluiu uma bela camada de cobertura e pôs sobre a mesa, ela passou a apreciar você apenas de fraldinha se deliciando e fazendo uma verdadeira lambança. Mas por um breve momento ela precisou se virar para pegar algo para limpar seu rostinho, mas de repente, naquele instante, uma pequena lagartixa, que passeava no teto, cai sobre o seu prato. De repente, uma pequena lagartixa que passeava pelo teto caiu sobre o prato. E, para sua surpresa, você não se assusta. Pelo contrário, começa a se divertir observando aquele pequeno animal tentando desesperadamente escapar daquele lugar. Ao perceber a lagartixa sobre o prato, ela reage por instinto. Grita para impedir que você toque naquele animal. O grito assusta você. Seu corpo se contrai, o choro começa e, em poucos segundos, uma experiência que até então era apenas curiosidade passa a ser acompanhada por medo.
O susto pode ser enorme. E, para aquela criança, talvez algo tenha começado a ser aprendido naquele instante: Aquilo que antes parecia apenas uma lagartixa agora também poderia significar perigo.
A criança chora, o corpo se contrai, o coração acelera. Aquilo que, segundos antes, representava segurança e prazer passa a estar associado a uma experiência de ameaça.
Agora imagine que, algum tempo depois, você ainda criança veja novamente uma lagartixa.
Talvez ela não consiga explicar racionalmente por que sente medo. Talvez nem consiga lembrar conscientemente daquele primeiro episódio. Mas seu corpo pode reconhecer alguma coisa naquela experiência e reagir. Porque o organismo pode ter aprendido a associar aquela experiência a uma ameaça, mesmo que a criança não consiga explicar conscientemente por que está reagindo daquela maneira.
É importante compreender que esse exemplo não significa que uma única experiência necessariamente produzirá um trauma. Ele serve para ilustrar algo muito mais amplo: Nosso organismo é capaz de aprender associações e desenvolver respostas de proteção a partir das experiências que vivemos.
E é justamente aqui que começamos a compreender uma parte importante da ansiedade.
Nem sempre aquilo que dispara uma reação emocional é compreendido imediatamente pela nossa consciência. Às vezes, o corpo reage primeiro e a nossa capacidade de interpretar o que está acontecendo vem depois.
É por isso que duas pessoas podem viver a mesma situação e apresentar reações completamente diferentes. Aquilo que para uma parece insignificante pode representar uma ameaça para outra, porque cada pessoa carrega uma história, experiências, aprendizados e significados diferentes.
Nesse processo, o sistema nervoso autônomo exerce um papel fundamental. De maneira simplificada, podemos pensar no sistema simpático como parte do mecanismo que prepara o organismo para a ação diante de uma ameaça, enquanto o parassimpático participa dos processos de recuperação e retorno ao repouso.
Um acelera quando precisamos responder.
O outro ajuda o organismo a desacelerar quando a ameaça passa.
E isso é absolutamente necessário. Imagine se nosso corpo não fosse capaz de acelerar diante de um perigo real. Imagine se, diante de uma situação que exigisse uma reação rápida, permanecêssemos completamente indiferentes.
O problema não está em possuir um sistema de alerta.
O problema pode começar quando o alarme dispara com frequência, intensidade ou duração maiores do que a situação exige.
E aqui chegamos a uma diferença fascinante entre nós e outros animais.
Imagine uma zebra pastando tranquilamente em uma savana. De repente, ela percebe um leão.
Não existe tempo para filosofar sobre aquilo. Não existe espaço para imaginar dez cenários diferentes. O organismo responde à ameaça. A zebra corre.
É luta ou fuga.
Se consegue escapar e o perigo deixa de existir, seu organismo pode gradualmente retornar a um estado de segurança.
O ser humano, porém, possui uma característica extraordinária: Nós não reagimos apenas ao que está acontecendo.
Também conseguimos reagir ao que imaginamos que pode acontecer. O ser humano possui uma característica extraordinária, não reage apenas ao que está acontecendo. Também é capaz de atribuir significado ao que sente, antecipar possibilidades, recordar experiências e reagir àquilo que imagina que pode acontecer.
Podemos sofrer hoje por uma possibilidade de amanhã. Podemos reviver mentalmente algo que aconteceu anos atrás. Podemos antecipar uma conversa que ainda nem aconteceu, imaginar uma perda que talvez nunca aconteça, interpretar um sintoma como sinal de uma ameaça maior ou permanecer em estado de alerta diante de uma situação que, naquele momento, não representa perigo real.
A zebra vê o leão e corre.
Nós podemos passar horas imaginando onde o leão poderá estar amanhã. Podemos até correr sem que exista leão algum diante de nós.
E o corpo pode responder a essa antecipação.
É por isso que a ansiedade pode ser tão difícil de compreender para quem está ao redor. Alguém pode olhar para uma pessoa ansiosa e dizer: “Mas não está acontecendo nada.”
E talvez realmente não esteja acontecendo nada naquele instante.
Mas isso não significa que nada esteja acontecendo dentro dela.
O corpo pode estar respondendo a uma ameaça percebida, antecipada ou associada a experiências anteriores. O coração acelerado não é uma escolha. A tensão não é frescura. A inquietação não é falta de vontade de ficar tranquilo. E dizer simplesmente “calma” para alguém que está vivendo uma resposta intensa de ansiedade raramente explica o que está acontecendo com aquela pessoa.
Talvez uma pergunta mais importante seja:
O que fez esse organismo aprender a permanecer em alerta?
Porque, quando olhamos apenas para o sintoma, podemos passar anos tentando combatê-lo sem compreender a história que existe por trás dele.
O coração dispara, e tentamos fazê-lo parar.
A respiração muda, e tentamos controlá-la.
Os pensamentos aceleram, e tentamos expulsá-los.
O corpo permanece tenso, e tentamos obrigá-lo a relaxar.
Mas talvez, em alguns casos, seja necessário olhar um pouco além daquilo que o corpo está fazendo e começar a compreender por que ele acredita que precisa fazer isso.
Isso não significa procurar uma única causa para toda ansiedade, porque experiências humanas são complexas e diferentes fatores podem participar desse processo. Significa apenas reconhecer que o sintoma não surgiu do nada e que compreender a própria história pode ser uma parte importante do caminho.
Talvez seu corpo não esteja contra você.
Talvez, de alguma maneira, esteja tentando protegê-lo.
E essa mudança de perspectiva pode ser profundamente importante.
Porque ninguém escolhe conscientemente viver em estado permanente de alerta. Ninguém acorda pela manhã desejando sentir o coração acelerado, a mente inquieta ou aquela sensação de que alguma coisa ruim está prestes a acontecer.
Em algum momento, o organismo aprendeu que precisava prestar atenção.
E talvez o caminho não seja simplesmente ensiná-lo a nunca mais correr.
Talvez seja ajudá-lo a reconhecer quando realmente existe um leão.
Afinal, o objetivo não é transformar o ser humano em uma zebra que nunca mais reage ao perigo.
É compreender quando estamos diante de uma ameaça real, quando estamos diante de uma lembrança e quando estamos apenas diante de um medo que o futuro ainda não confirmou.
Porque existe uma diferença enorme entre estar em perigo e sentir-se em perigo.
E talvez compreender essa diferença seja um dos primeiros passos para começar a olhar para a ansiedade não apenas como um conjunto de sintomas que precisam desaparecer, mas como uma mensagem que merece ser compreendida.
Às vezes, o corpo dispara o alarme antes que consigamos entender por quê.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Como faço para parar de sentir isso?”
Mas também:
“O que o meu corpo está tentando me dizer?”
Ao longo da minha trajetória, já acompanhei centenas de pessoas que chegaram acreditando que precisavam apenas silenciar os sintomas e descobriram que, muitas vezes, existia uma história por trás deles que precisava ser compreendida. Talvez este seja o momento de começar a compreender a sua.
Willian Gomes
Especialista em Saúde Emocional
Onde a dor encontra acolhimento e a vida, transformação.
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