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Quinta-feira, 20 de Agosto 2026
Notícias/Economia

Bets drenam R$ 37 bilhões e perdas superam impacto da nova isenção do Imposto de Renda

Dados do Ministério da Fazenda mostram que brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões em apostas em 2025; diferença entre apostas e valores devolvidos em prêmios chegou a R$ 37 bilhões e supera a estimativa de R$ 31 bilhões de impacto da isenção do IR.

Bets drenam R$ 37 bilhões e perdas superam impacto da nova isenção do Imposto de Renda
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O dinheiro que deve permanecer no bolso das famílias brasileiras com a ampliação da isenção do Imposto de Renda encontra um contraponto bilionário no mercado de apostas esportivas. Segundo reportagem publicada pelo UOL nesta quinta-feira (20), brasileiros perderam R$ 37 bilhões nas bets em 2025, valor superior aos R$ 31 bilhões que, pelas estimativas oficiais, deixarão de ser recolhidos com a nova faixa de isenção do IR.

Os números utilizados na comparação são do Ministério da Fazenda. Pelos cálculos apresentados, as perdas registradas nas apostas foram aproximadamente 20% superiores ao benefício econômico estimado com a isenção.

A comparação ajuda a dimensionar quanto dinheiro deixou de permanecer com os apostadores em apenas um ano, mas exige uma ressalva importante: não significa que os mesmos brasileiros beneficiados pela isenção sejam necessariamente aqueles que perderam dinheiro nas bets.

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A isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil passou a valer em 2026, após a reforma aprovada no ano passado. A estimativa é que a mudança deixe aproximadamente R$ 31 bilhões adicionais com as famílias beneficiadas.

O efeito esperado de uma medida como essa é aumentar a renda disponível. Uma pessoa que anteriormente precisava destinar parte do salário ao Imposto de Renda passa a ter esse dinheiro para consumo, pagamento de dívidas, formação de reserva ou outras despesas.

É justamente nesse ponto que o crescimento das apostas entra na discussão econômica.

R$ 220,6 BILHÕES FORAM DEPOSITADOS EM BETS

Os R$ 37 bilhões não correspondem ao total apostado pelos brasileiros durante 2025.

Segundo os dados da Fazenda apresentados pelo UOL, aproximadamente R$ 220,6 bilhões foram depositados em plataformas de apostas ao longo do ano.

Parte considerável desse dinheiro retornou aos jogadores.

Cerca de R$ 183 bilhões foram devolvidos na forma de prêmios e bônus. A diferença entre aquilo que entrou nas plataformas e o que retornou aos apostadores ficou em aproximadamente R$ 37 bilhões.

Esse valor é conhecido pelo mercado como GGR, sigla em inglês para receita bruta de jogos. Trata-se, de maneira simplificada, do dinheiro que permanece com as empresas depois de descontados os valores devolvidos aos apostadores em prêmios e bônus, antes da dedução dos impostos.

É esse montante que a reportagem compara aos R$ 31 bilhões estimados com a ampliação da isenção do Imposto de Renda.

NÚMERO DE APOSTADORES CRESCEU DURANTE 2025

Os dados também mostram uma expansão do mercado ao longo do primeiro ano de funcionamento das bets dentro do ambiente regulamentado.

Em janeiro de 2025, cerca de 7 milhões de pessoas depositaram R$ 12 bilhões nas plataformas.

Em outubro, o número se aproximou de 11 milhões de apostadores e o total movimentado superou R$ 21 bilhões.

Dezembro terminou com aproximadamente 10 milhões de apostadores e R$ 20 bilhões gastos nas plataformas.

A evolução ajuda a mostrar que as apostas passaram a movimentar mensalmente valores expressivos dentro do orçamento das famílias brasileiras.

E os R$ 37 bilhões podem não representar todo o mercado.

Segundo a reportagem, os números utilizados pela Fazenda consideram os valores oficialmente declarados pelas empresas legalizadas. O mercado ilegal de apostas não aparece nessas contas.

IR DEIXA R$ 31 BILHÕES COM AS FAMÍLIAS

Do outro lado dessa comparação está a mudança no Imposto de Renda.

A nova regra passou a valer em 2026 e estabeleceu isenção para quem recebe até R$ 5 mil.

Segundo as estimativas oficiais citadas pelo UOL, aproximadamente R$ 31 bilhões deixarão de ser recolhidos e permanecerão com as famílias alcançadas pela medida.

Isso não significa que cada real economizado no IR será destinado às apostas.

O próprio pesquisador Lauro Gonzalez, do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), ouvido pelo UOL, faz essa ressalva.

Nem todos os beneficiados pela nova faixa de isenção são apostadores e, da mesma forma, nem todos os apostadores necessariamente pertencem ao grupo que passou a ser isento.

Portanto, não seria correto afirmar que os R$ 31 bilhões da isenção serão diretamente transferidos para as bets.

A comparação é macroeconômica.

CONSUMO PODE SER AFETADO

A questão levantada é o destino de uma parcela crescente da renda disponível das famílias.

Quando alguém recebe mais dinheiro ou deixa de pagar determinado imposto, esse recurso pode retornar à economia por meio do consumo. Pode ser utilizado no supermercado, comércio, pagamento de serviços, compra de roupas, alimentação, lazer ou quitação de dívidas.

Quando o dinheiro termina como perda em uma plataforma de apostas, deixa de circular dessa mesma maneira na economia cotidiana.

Gonzalez avalia que existe provavelmente uma intersecção relevante entre os brasileiros alcançados por políticas de renda e aqueles que utilizam plataformas de apostas.

Do ponto de vista macroeconômico, segundo o pesquisador, uma parcela de recursos que poderia ser utilizada no consumo acaba direcionada às bets.

Para municípios como Santa Isabel, a discussão também interessa porque o consumo das famílias está diretamente relacionado ao movimento do comércio e dos serviços locais.

Isso não permite calcular quanto dinheiro de moradores do município é direcionado às apostas, já que os dados apresentados pela reportagem são nacionais e não trazem recorte para Santa Isabel.

O efeito econômico discutido, entretanto, é semelhante: recursos gastos em apostas deixam de estar disponíveis para outras despesas do orçamento doméstico.

APOSTAS E ENDIVIDAMENTO

Outro ponto abordado pelo pesquisador é a relação entre apostas e endividamento.

Segundo Gonzalez, pode surgir um ciclo no qual pessoas endividadas apostam na expectativa de conseguir dinheiro para pagar compromissos financeiros. Quando a aposta não produz o resultado esperado, a situação pode se agravar.

Ao mesmo tempo, há pessoas que contraem novas dívidas para continuar apostando.

Esse comportamento ajuda a explicar por que analisar apenas indicadores como salário ou aumento da renda não necessariamente revela quanto dinheiro efetivamente permanece disponível para uma família ao final do mês.

Uma pessoa pode receber mais e, ao mesmo tempo, comprometer uma parcela maior dos recursos com dívidas ou apostas.

DADOS DE 2026 AINDA NÃO ESTÃO DISPONÍVEIS

Existe ainda uma diferença temporal importante na comparação.

Os R$ 37 bilhões de perdas correspondem a 2025. Já a nova isenção do Imposto de Renda começou a valer neste ano de 2026.

Até a publicação da reportagem, a Fazenda ainda não havia disponibilizado os dados parciais dos valores movimentados pelas bets em 2026.

Assim, ainda não é possível saber se o ritmo de apostas observado no ano passado aumentou, diminuiu ou permaneceu semelhante depois da entrada em vigor da nova faixa de isenção.

Os números de 2025, entretanto, ajudam a dimensionar o tamanho alcançado pelo mercado.

Em um único ano, R$ 220,6 bilhões foram depositados nas plataformas legalizadas e R$ 37 bilhões não retornaram aos apostadores em prêmios e bônus.

É justamente essa última cifra que chama atenção quando colocada ao lado dos R$ 31 bilhões estimados de benefício às famílias com a nova política do Imposto de Renda.

A comparação não significa que a isenção tenha sido literalmente anulada pelas apostas nem que os recursos tenham saído das mesmas famílias. Ela mostra, em escala nacional, que o dinheiro perdido nas bets já alcançou dimensão suficiente para superar o impacto financeiro estimado de uma das principais mudanças recentes no Imposto de Renda.

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