Aguarde, carregando...

Quinta-feira, 20 de Agosto 2026
Notícias/POLÍTICA

Lula e Flávio Bolsonaro propõem caminhos diferentes para derrotar facções

Programas dos dois principais candidatos à Presidência colocam o crime organizado no centro das propostas de segurança, mas apresentam estratégias diferentes; Lula prioriza integração e inteligência, enquanto Flávio Bolsonaro aposta no endurecimento

Lula e Flávio Bolsonaro propõem caminhos diferentes para derrotar facções
Bruno Santos e Evaristo Sá/Folhapress e AFP
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A segurança pública ocupa espaço central nos programas apresentados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a eleição presidencial de 2026. Os dois candidatos reconhecem o avanço das facções criminosas como um dos principais desafios do país, mas apresentam caminhos diferentes para enfrentá-las: enquanto Lula concentra suas propostas na integração das forças de segurança, inteligência e prevenção, Flávio aposta principalmente no endurecimento das penas, ampliação do sistema prisional e maior aparato de vigilância.

Segundo análise publicada pela Folha de S.Paulo, os dois programas partem de um diagnóstico semelhante sobre a transformação do crime organizado brasileiro.

As facções deixaram de atuar apenas no tráfico de drogas e armas, roubos e domínio territorial e passaram a operar também como estruturas financeiras e logísticas, com presença em mercados legais, lavagem de dinheiro e influência sobre instituições e contratos públicos.

Publicidade

Leia Também:

O Brasil possui atualmente 88 facções criminosas mapeadas.

Apesar das diferenças políticas entre os candidatos, existe um ponto importante de aproximação: ambos defendem que o combate às organizações criminosas precisa atingir também seu patrimônio e suas fontes de financiamento.

ATACAR O DINHEIRO DAS FACÇÕES

Lula e Flávio convergem na ideia de que apenas prender integrantes que atuam diretamente nas ruas não é suficiente para desmontar organizações que possuem patrimônio, comando, fornecedores, rotas de transporte e mecanismos de lavagem de dinheiro.

Flávio Bolsonaro propõe uma estratégia de "seguir o dinheiro", com bloqueio de ativos e desarticulação das estruturas utilizadas para lavagem.

Lula, por sua vez, fala em "asfixia financeira" das facções.

Segundo os dados apresentados pelo petista, operações articuladas nessa área teriam causado R$ 35,8 bilhões em prejuízos às organizações criminosas desde 2023.

A preocupação ganhou força depois de investigações que expuseram conexões entre o crime organizado e atividades econômicas aparentemente legais.

A Folha cita como exemplo a operação Carbono Oculto, realizada em agosto de 2025, que revelou ligações de facções com o sistema financeiro e atingiu economicamente organizações criminosas sem necessidade de confronto armado.

Os dois candidatos também apresentam pontos de convergência sobre controle das fronteiras, isolamento de lideranças criminosas dentro do sistema penitenciário e retomada de territórios controlados por organizações criminosas.

A dimensão do problema aparece em levantamento citado pela reportagem: pesquisa Datafolha indicou que aproximadamente 68 milhões de brasileiros vivem em áreas sob domínio do crime organizado.

É principalmente na maneira de enfrentar essa realidade que os programas começam a se distanciar.

LULA QUER MAIOR INTEGRAÇÃO ENTRE UNIÃO, ESTADOS E MUNICÍPIOS

A proposta de Lula coloca maior peso na coordenação nacional das políticas de segurança.

O programa prevê ampliar a participação da União na articulação entre os governos federal, estaduais e municipais, buscando integrar bancos de dados, inteligência, investigações e operações.

Um dos projetos é a criação de um Ministério da Segurança Pública.

A ideia não é inédita. Uma pasta específica para a área chegou a existir durante o governo Michel Temer, em 2018. A criação de um ministério também apareceu entre as promessas de Lula na campanha presidencial de 2022, mas não foi concretizada durante o atual mandato.

Na campanha de 2026, o petista volta a defender uma estrutura federal específica para centralizar políticas e programas de segurança.

Lula também utiliza como parte de sua plataforma medidas adotadas durante o atual governo, entre elas o Programa Brasil Contra o Crime Organizado e a chamada lei antifacção.

PREVENÇÃO TAMBÉM APARECE NO PROGRAMA PETISTA

Outra diferença está na atenção dada às políticas preventivas.

O programa de Lula inclui propostas de urbanização de favelas e periferias, recuperação de espaços públicos e ampliação da presença de serviços públicos em regiões consideradas vulneráveis à atuação das organizações criminosas.

A estratégia parte do entendimento de que facções também ocupam espaços deixados pela ausência ou deficiência de determinados serviços do Estado.

Também aparecem entre as propostas o policiamento de proximidade, mediação comunitária, práticas de justiça restaurativa e políticas destinadas à juventude negra.

Nesse modelo, o enfrentamento à criminalidade não ficaria limitado às ações policiais e ao sistema penal, mas incluiria políticas sociais e urbanas como instrumentos de prevenção.

FLÁVIO QUER FACÇÕES CLASSIFICADAS COMO TERRORISTAS

Flávio Bolsonaro apresenta uma estratégia concentrada principalmente no aparato punitivo do Estado.

Entre suas propostas está classificar organizações como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A medida já foi defendida pelo candidato em interlocução com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A Folha pondera, entretanto, que os efeitos jurídicos dessa mudança no Brasil são discutíveis.

Isso porque a Lei 15.358/2026, conhecida como lei antifacção, já ampliou instrumentos disponíveis para investigação, bloqueio e confisco de patrimônio das organizações criminosas.

Além disso, crimes de terrorismo pertencem à esfera federal. Dessa forma, investigações ficariam sob responsabilidade da Polícia Federal e processos seriam conduzidos pela Justiça Federal.

O desafio, nesse caso, seria a capacidade operacional dessas estruturas diante da dimensão nacional das organizações criminosas.

REDUÇÃO DA MAIORIDADE E PENAS MAIS DURAS

O programa de Flávio Bolsonaro também inclui redução da maioridade penal, restrições à progressão de regime, aumento de penas e construção de presídios.

O candidato defende ainda castração química para condenados por crimes sexuais e cumprimento integral da condenação para assassinos.

A proposta de aumentar o rigor das penas ocorre em um cenário no qual outro problema permanece relevante: a capacidade de esclarecer os próprios crimes.

Segundo os dados apresentados na análise da Folha, apenas seis em cada dez homicídios são investigados no Brasil.

Ou seja, além da discussão sobre o tamanho das penas, existe o desafio de identificar autores, produzir provas e levar os responsáveis à Justiça.

500 MIL NOVAS VAGAS EM PRESÍDIOS

Uma das maiores diferenças entre os programas aparece na política penitenciária.

Flávio Bolsonaro promete construir cinco novos presídios federais de segurança máxima, dentro de um projeto denominado "sistema Treva".

O candidato também propõe criar 500 mil novas vagas no sistema prisional brasileiro durante quatro anos.

A ampliação tenta responder à superlotação das unidades, problema que também contribui para o fortalecimento das próprias facções dentro dos presídios.

O programa propõe ainda transferir integralmente o auxílio financeiro destinado às famílias de presos de baixa renda para famílias de vítimas de crimes, mas, segundo a Folha, não detalha quais critérios seriam utilizados.

Lula apresenta outra abordagem para o sistema penitenciário.

Seu programa fala em redução da superlotação e melhoria das condições das unidades, mas não prevê a construção de novos presídios como eixo central.

A proposta inclui ampliar oportunidades de educação, trabalho, qualificação profissional e geração de renda dentro do sistema, buscando favorecer a reinserção social depois do cumprimento da pena.

MAIS DE 1 MILHÃO DE CÂMERAS

A tecnologia aparece nos programas dos dois candidatos, novamente com aplicações diferentes.

Lula propõe ampliar o uso de drones, radares, sensores e satélites, além de sistemas para rastreamento de armas e munições.

Também pretende ampliar o programa Celular Seguro, buscando dificultar fraudes e a comercialização de aparelhos roubados e furtados.

Flávio Bolsonaro propõe a criação de um sistema nacional de reconhecimento facial conectado aos bancos de dados criminais.

O projeto prevê mais de 1 milhão de novas câmeras instaladas em espaços públicos, portos e aeroportos.

Para combater roubos e furtos de celulares, o candidato do PL também propõe quadruplicar as penas aplicadas a quem furta e comercializa os aparelhos.

PROTEÇÃO ÀS MULHERES TEM PONTOS SEMELHANTES

Outro tema em que os programas voltam a se aproximar é o enfrentamento à violência contra as mulheres.

Lula e Flávio defendem maior rapidez na concessão de medidas protetivas, ampliação da rede de acolhimento às vítimas e monitoramento de agressores por tornozeleiras eletrônicas.

Embora apresentem propostas semelhantes nessa área, a implementação dessas medidas exige estrutura, profissionais, equipamentos e recursos financeiros.

E justamente o financiamento aparece como uma das principais questões ainda sem resposta completa nos dois programas.

QUANTO VAI CUSTAR?

Apesar da quantidade de propostas, os programas deixam dúvidas sobre quanto será necessário gastar para colocá-las em prática e de onde virão todos os recursos.

Flávio Bolsonaro afirma que pretende dobrar o orçamento destinado à segurança pública, mas, segundo a Folha, não detalha de onde sairá o dinheiro necessário.

Lula especifica uma fonte para parte dos investimentos destinados aos estados e municípios.

A proposta prevê R$ 10 bilhões provenientes do Fundo Nacional de Investimento em Infraestrutura Social (FIIS) para equipamentos e infraestrutura de segurança.

O restante dos recursos necessários para executar as demais medidas também não está detalhado.

Assim, embora segurança pública apareça como prioridade dos dois principais candidatos e haja concordância sobre a necessidade de enfraquecer financeiramente as facções, o eleitor encontra duas estratégias distintas.

De um lado, Lula propõe ampliar a coordenação federal, integrar informações e forças policiais, investir em inteligência e combinar repressão com políticas preventivas e de reinserção social.

Do outro, Flávio Bolsonaro concentra suas propostas no aumento da capacidade punitiva do Estado, endurecimento das penas, ampliação das prisões, reconhecimento facial e expansão da vigilância.

Em comum, além do diagnóstico sobre a dimensão alcançada pelo crime organizado, permanece uma pergunta fundamental para avaliar a viabilidade das promessas apresentadas durante a campanha: quanto cada modelo custará e como será financiado.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
O Isabelense

Publicado por:

O Isabelense

O Isabelense nasceu para informar Santa Isabel e cresceu para levar aos seus leitores tudo o que realmente importa. Notícias locais, regionais, nacionais e os acontecimentos que impactam o seu dia a dia, com rapidez, credibilidade e compromisso com...

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp O Isabelense
Envie sua mensagem, vamos responder assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR