Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 17 de Julho 2026
Carregando jogos...
Colunas/Jornada de Transformação

O luto de perder quem você era e precisar reconstruir a própria identidade

Nem toda perda é de alguém; às vezes, o maior luto nasce quando deixamos para trás a versão que acreditávamos ser

O luto de perder quem você era e precisar reconstruir a própria identidade
Imagem criada com auxílio de inteligência artificial
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Há algum tempo, ouvi uma frase que nunca mais saiu da minha memória.

Naquele momento, ela parecia falar apenas sobre um emprego perdido. Hoje, percebo que falava sobre algo infinitamente maior.

"Eu perdi meu emprego, mas a verdade é que não sei mais quem eu sou."

Quando aquela frase foi dita, imaginei que encontraria um homem preocupado com as contas a pagar, com o futuro da família ou com a insegurança que naturalmente acompanha a perda de um trabalho. Tudo isso realmente existia. Mas, à medida que sua história foi sendo reconstruída, tornou-se evidente que a dor que o havia levado até ali não havia começado no dia em que recebeu a notícia da demissão.

Desde muito cedo, ele aprendeu que precisava ser útil para ocupar um lugar no mundo. Fazer pelos outros, assumir responsabilidades e resolver problemas deixaram de ser apenas atitudes. Aos poucos, transformaram-se na maneira como compreendia o próprio valor. Sem perceber, passou a acreditar que só seria digno de reconhecimento enquanto fosse capaz de carregar pesos que, muitas vezes, nem lhe pertenciam.

A vida adulta apenas reforçou essa forma de existir. O trabalho lhe oferecia exatamente aquilo que sua mente havia aprendido a procurar durante tantos anos: A oportunidade constante de produzir, proteger, solucionar e cuidar. A profissão deixou de ser apenas uma atividade. Tornou-se a confirmação diária de que continuava sendo a pessoa que acreditava precisar ser.

Quando perdeu o emprego, imaginou que havia perdido apenas uma profissão. Na verdade, o que desmoronou foi a identidade que havia construído ao redor dela.

Naquele instante, compreendi que ele não estava vivendo apenas o luto pela profissão.

Estava vivendo o luto por uma versão de si mesmo.

Talvez esse seja um dos lutos mais silenciosos que existam. Porque ninguém o reconhece. Não há despedidas, não há flores, não há palavras de conforto. A expectativa é que a pessoa atualize o currículo, participe de novas entrevistas e siga em frente, como se a única perda tivesse sido financeira.

Mas a mente humana raramente sofre apenas pelos acontecimentos. Ela sofre, sobretudo, pelo significado que lhes atribui. Afinal, aquilo que acontece conosco nunca chega sozinho; Chega acompanhado da história que construímos sobre quem somos.

Duas pessoas podem perder exatamente o mesmo emprego e viver experiências completamente diferentes. Para uma, será uma fase difícil, porém passageira. Para outra, poderá representar o colapso de toda a sua identidade. A diferença não está no acontecimento, mas na história que cada uma construiu ao longo da vida.

Foi então que aquele atendimento reforçou uma das maiores lições que a experiência clínica me ensinou, algumas perdas encontram, dentro de nós, programações emocionais construídas muitos anos antes. E, quando isso acontece, a dor deixa de atingir apenas aquilo que perdemos. Ela alcança a forma como aprendemos a existir.

Talvez seja essa a razão de algumas pessoas se sentirem completamente perdidas depois de uma aposentadoria, de um divórcio, da saída dos filhos de casa ou do encerramento de uma carreira. Quem observa de fora enxerga apenas o fim de um ciclo. Quem vive a experiência sente algo muito mais profundo, a perda da própria referência.

É por isso que tantas vezes ouvimos alguém dizer, quase em tom de desespero:

"Eu não sei mais quem eu sou."

Essa frase dificilmente fala apenas sobre o presente. Na maioria das vezes, ela revela uma identidade construída ao redor de um papel que, por algum motivo, deixou de existir.

Talvez o aspecto mais curioso do luto invisível seja justamente esse. Ele não nasce apenas daquilo que a vida levou embora. Nasce também da dificuldade de imaginar quem podemos ser quando aquilo que sustentava nossa identidade deixa de existir.

Foi isso que aquele homem me ensinou.

Ele chegou acreditando que precisava recuperar um emprego para voltar a encontrar a si mesmo. Aos poucos, descobriu que sua maior necessidade não era recuperar uma função, mas compreender que seu valor jamais esteve condicionado à utilidade que oferecia aos outros.

Naquele dia, percebi que o verdadeiro luto não era pela vaga que havia perdido.

Era pela despedida da única versão de si mesmo que acreditava precisar ser.

Quando aquele atendimento terminou, percebi que ele não havia recuperado um emprego. Ainda não.

Mas havia recuperado algo infinitamente mais importante.

Pela primeira vez, aquele homem começava a compreender que seu valor nunca esteve naquilo que conseguia fazer pelos outros. Durante muitos anos acreditou que precisava provar sua utilidade para merecer amor, reconhecimento e pertencimento. Naquele dia, começou a descobrir que não precisava mais carregar esse peso.

O menino que um dia aprendeu que precisava conquistar o próprio lugar no mundo através daquilo que fazia finalmente dava espaço ao homem que descobria que poderia ser amado simplesmente por aquilo que era.

Talvez esse seja um dos maiores presentes escondidos dentro do luto. Algumas perdas não chegam apenas para levar embora partes da nossa história. Elas chegam para nos devolver partes de nós mesmos que passaram anos escondidas atrás das versões que criamos para sobreviver.

Talvez o verdadeiro luto não seja apenas aprender a viver sem aquilo que perdemos.

Talvez seja descobrir quem somos quando aquilo que sustentava nossa identidade deixa de existir.

Hoje, sempre que me lembro daquela frase: "Eu perdi meu emprego, mas a verdade é que não sei mais quem eu sou." Já não escuto um homem falando sobre uma demissão. Escuto alguém iniciando uma das jornadas mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais transformadoras da vida, a de descobrir que nossa identidade nunca deveria depender daquilo que um dia podemos perder.

Willian Gomes
Especialista em Saúde Emocional

Onde a dor encontra acolhimento e a vida, transformação.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
WILLIAN GOMES

Publicado por:

WILLIAN GOMES

Willian Gomes dedica sua vida a acolher pessoas com dores emocionais. Já ajudou centenas a superarem ansiedade e depressão, oferecendo escuta, segurança e apoio para recomeçar com leveza e autenticidade.

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp O Isabelense
Envie sua mensagem, vamos responder assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR