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Sexta-feira, 24 de Abril 2026

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Trend sem estratégia virou crise em muitas prefeituras

Entre vídeos apressados, falta de critério e enxurrada de críticas, a comunicação pública revela que nem toda trend combina com gestão responsável

Trend sem estratégia virou crise em muitas prefeituras
IA LMM
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A internet gosta de velocidade.

Uma frase viraliza de manhã, à tarde já virou meme e, à noite, parece obrigação nacional participar. Quem fica de fora teme parecer atrasado. Quem entra cedo espera surfar o alcance. Quem acerta comemora números. Quem erra… vira exemplo.

Nos últimos tempos, muitas prefeituras decidiram entrar nessa lógica. Aderiram à trend do “será?” como quem corre para não perder o bonde digital.

O problema é que, em vários casos, perderam algo maior.

Perderam critério.

Perderam leitura de contexto.

Perderam a noção de que comunicação pública não funciona como perfil pessoal buscando likes.

E o resultado apareceu rápido: enxurrada de críticas, comentários negativos, desgaste institucional e crises que poderiam ter sido evitadas com algo simples — gestão.

Porque não foi a trend que causou o problema.

Foi a ausência de estratégia.

Existe uma diferença fundamental entre usar linguagem atual e agir por impulso. Entre estar atento ao comportamento digital e copiar qualquer febre do momento. Entre modernizar a comunicação e infantilizar a imagem institucional.

Muitas prefeituras parecem esquecer isso quando entram em tendências como se toda oportunidade de alcance fosse automaticamente positiva.

Não é.

Na esfera pública, comunicar exige filtros que o entretenimento não exige.

Uma prefeitura fala em nome de serviços essenciais. Representa saúde, educação, trânsito, limpeza urbana, assistência social, segurança institucional. Carrega expectativas reais de quem depende do poder público para resolver problemas concretos.

Por isso, quando entra em uma trend sem contexto, sem timing e sem propósito, a reação costuma ser dura.

E compreensível.

Enquanto o cidadão espera resposta sobre buraco na rua, fila na saúde, transporte precário ou falta de vaga, ele encontra a gestão preocupada em parecer divertida.

Enquanto moradores cobram solução, recebem performance.

Enquanto pedem escuta, recebem roteiro.

A população percebe esse desencontro com rapidez.

E hoje ela responde em tempo real.

Os comentários se transformam em termômetro público. O que antes ficava restrito a conversas de rua agora explode em telas abertas. A crítica se multiplica, a imprensa repercute, adversários aproveitam, aliados silenciam.

Em poucas horas, um vídeo pensado para aproximar vira símbolo de desconexão.

Esse tipo de crise quase nunca nasce do conteúdo isolado. Ela nasce do acúmulo.

Da sensação de que faltam prioridades.

Da percepção de que existe mais energia para gravar do que para resolver.

Da impressão de que ninguém dentro da estrutura teve coragem de perguntar: será?

Será que isso combina com o momento da cidade?

Será que isso conversa com a realidade local?

Será que isso fortalece a imagem institucional ou a enfraquece?

Será que vale o risco?

Quando não existe governança na comunicação, essas perguntas desaparecem. E, sem perguntas difíceis, decisões ruins ficam fáceis.

A tendência então substitui planejamento.

O algoritmo substitui estratégia.

A pressa substitui inteligência.

E a gestão passa a reagir ao feed em vez de conduzir narrativa própria.

Esse é um erro caro.

Porque reputação institucional se constrói lentamente, com consistência, seriedade e confiança. Já o desgaste pode nascer em um único post.

Isso significa que prefeitura não pode ser leve, criativa ou moderna?

Claro que não.

Pode — e deve.

A linguagem pública precisa evoluir, dialogar com novos formatos, ocupar redes sociais e falar de maneira acessível. O problema nunca foi a modernização. O problema é a falta de direção.

Criatividade sem critério vira constrangimento.

Humor sem sensibilidade vira insensibilidade.

Trend sem estratégia vira crise.

O caminho mais inteligente talvez seja outro: usar repertório digital para informar melhor, não para imitar tudo. Aproveitar formatos rápidos para prestar serviço. Humanizar sem perder postura. Ser atual sem ser refém do momento.

Isso exige liderança na comunicação.

Exige equipe técnica com autonomia.

Exige planejamento.

Exige alguém capaz de dizer “não” quando todo mundo quer dizer “vai render”.

Porque nem tudo que rende clique rende respeito.

No fim das contas, a trend do “será?” deixou uma lição involuntária para muitas gestões.

Antes de publicar qualquer vídeo tentando parecer próximo, talvez fosse melhor perguntar de verdade:

Será que a cidade precisava disso agora?

Será que a população vai se sentir representada?

Será que estamos comunicando valor… ou carência de rumo?

Será que estamos buscando conexão… ou só atenção?

Porque, na comunicação pública, parecer moderno por alguns minutos pode custar credibilidade por muito tempo.

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

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