O petróleo voltou a superar a marca de US$ 100 por barril e reacendeu a preocupação com os efeitos dos conflitos no Oriente Médio sobre a economia mundial. Para o Brasil, entretanto, o maior ponto de atenção não está apenas no preço do petróleo bruto, mas principalmente no diesel, combustível essencial para o transporte de cargas, a produção agropecuária e diferentes cadeias industriais.
Segundo editorial publicado pela Folha de S.Paulo, o barril do petróleo Brent ultrapassou novamente os US$ 100 pela primeira vez desde julho. Ao mesmo tempo, os derivados enfrentam uma pressão ainda maior: nos Estados Unidos, o diesel chegou a US$ 6 por galão.
O movimento ocorre em meio a dificuldades simultâneas em algumas das principais rotas e fontes de abastecimento do mercado internacional.
Para o consumidor brasileiro, a alta internacional não significa necessariamente que o preço pago nos postos aumentará imediatamente na mesma proporção. Mas uma elevação prolongada do diesel pode se espalhar pela economia porque grande parte das mercadorias que circulam no país depende do transporte rodoviário.
ESTREITO DE HORMUZ CONTINUA SOB PRESSÃO
Uma das principais preocupações está no estreito de Hormuz, passagem estratégica para o comércio mundial de petróleo.
Segundo o editorial, a normalização da rota permanece incompleta e pode se prolongar até 2027, conforme alerta da Agência Internacional de Energia.
O tráfego chegou a aproximadamente 8 milhões de barris por dia em agosto, mas voltou a cair diante de novos ataques relacionados ao conflito na região.
A importância de Hormuz está justamente na quantidade de petróleo e derivados que normalmente passam pelo local. Quando a circulação é reduzida ou se torna mais arriscada, os efeitos podem aparecer nos custos de transporte, seguros, disponibilidade do produto e, consequentemente, nos preços internacionais.
Uma das alternativas utilizadas pela Arábia Saudita foi ampliar o transporte pelo oleoduto Leste-Oeste, que permite levar petróleo em direção ao Mar Vermelho sem depender exclusivamente da passagem por Hormuz.
Essa alternativa chegou a movimentar até 5 milhões de barris por dia, segundo os dados citados pela Folha.
O problema é que ataques realizados por rebeldes houthis do Iêmen interromperam também essa rota.
DIESEL SOFRE PRESSÃO MAIOR QUE O PETRÓLEO BRUTO
A situação dos derivados tornou-se ainda mais delicada porque os problemas não estão concentrados apenas no Oriente Médio.
A Rússia, importante fornecedora mundial de diesel, reduziu sua capacidade de refino em consequência de ataques ucranianos.
O resultado da combinação desses fatores é uma pressão sobre o diesel superior àquela observada no próprio petróleo bruto.
Isso ajuda a explicar por que o barril acima de US$ 100 preocupa, mas não conta sozinho toda a história.
Quando refinarias produzem menos e rotas importantes de transporte são prejudicadas simultaneamente, a oferta de derivados pode ficar mais restrita mesmo que exista petróleo bruto disponível no mercado.
BRASIL IMPORTA ENTRE 25% E 30% DO DIESEL QUE CONSOME
É nesse ponto que a crise internacional chega mais diretamente ao Brasil.
O país importa entre 25% e 30% do diesel consumido internamente, segundo os números apresentados no editorial.
Pelo menos dois terços dessas importações são realizados por empresas privadas.
Essas companhias compram o produto no mercado internacional e, portanto, estão diretamente expostas às oscilações das cotações externas.
A Petrobras responde pela parcela menor dessas importações e enfrenta pressão para evitar que a alta internacional seja integralmente transferida aos preços domésticos.
A defasagem entre o diesel vendido pela Petrobras e o produto importado já ultrapassa R$ 3 por litro em algumas medições citadas pela Folha.
Uma diferença elevada e persistente pode gerar dificuldades para os importadores privados competirem com o combustível comercializado internamente a preços inferiores aos praticados no mercado externo.
POR QUE O DIESEL PODE AFETAR ATÉ QUEM NÃO TEM CARRO
O impacto potencial do diesel vai muito além do motorista que abastece diretamente com esse combustível.
O transporte rodoviário possui papel central na distribuição de produtos no Brasil.
Alimentos, medicamentos, materiais de construção, produtos industriais e mercadorias destinadas ao comércio percorrem diferentes distâncias em caminhões antes de chegar ao consumidor.
Se o custo do combustível utilizado nesse transporte aumenta, as empresas podem enfrentar despesas maiores com frete.
Dependendo da intensidade e da duração da alta, parte desse custo pode ser incorporada aos preços finais.
O agronegócio também está particularmente exposto. Além do transporte da produção, máquinas e equipamentos utilizados no campo dependem do diesel.
A Folha chama atenção para o fato de que a alta ocorre justamente quando uma nova safra começa e em um cenário que também apresenta riscos climáticos associados ao El Niño.
Isso não significa que o aumento internacional do petróleo produzirá automaticamente uma alta generalizada dos preços no Brasil. O repasse depende da duração da crise, da política de preços dos combustíveis, do câmbio, da atuação dos importadores, de impostos e de outros fatores.
Mas uma elevação prolongada do diesel representa uma fonte adicional de pressão inflacionária.
GOVERNO AMPLIA SUBSÍDIOS PARA CONTER PREÇOS
Diante da alta internacional, o governo federal adotou medidas para tentar reduzir o impacto dos combustíveis sobre os consumidores.
Segundo a Folha, o novo pacote reduz PIS/Cofins da gasolina em R$ 0,63 por litro.
Para o diesel, foi criado um subsídio adicional de R$ 1 por litro, que se soma aos R$ 1,12 já vigentes até setembro.
As medidas recentes representam um custo mensal de aproximadamente R$ 7 bilhões para os cofres públicos, conforme os números citados no editorial.
Nesse caso, parte do impacto que poderia chegar diretamente ao preço dos combustíveis é absorvida pelo orçamento federal.
Isso também significa, porém, que existe custo para o poder público.
O editorial da Folha defende que a utilização desses recursos seja temporária e avaliada em relação às demais necessidades do orçamento. Essa posição é uma avaliação editorial do jornal, e não um dado objetivo ou uma determinação econômica.
PETROBRAS RECUOU DE AUMENTO DA GASOLINA
Outro episódio aumentou a discussão sobre a política de preços dos combustíveis no país.
Na semana passada, a Petrobras anunciou um aumento no preço da gasolina e recuou poucas horas depois.
Segundo a Folha, a empresa não apresentou justificativa para a mudança.
O episódio ocorreu às vésperas da eleição presidencial e provocou questionamentos sobre eventual interferência política na estatal.
O editorial manifesta desconfiança sobre essa possibilidade. Até o conteúdo apresentado pela Folha, entretanto, não há comprovação mencionada de que o recuo tenha ocorrido por determinação política do governo.
É necessário, portanto, separar o fato — a Petrobras anunciou e depois cancelou o reajuste — da interpretação editorial sobre as razões da decisão.
O QUE O CONSUMIDOR BRASILEIRO PRECISA OBSERVAR
O retorno do petróleo à faixa superior a US$ 100 não significa que gasolina e diesel subirão imediatamente nas bombas brasileiras.
O ponto de maior atenção está na duração da crise internacional.
Se as restrições nas rotas de transporte e na produção de derivados forem prolongadas, o custo das importações brasileiras poderá continuar elevado.
No caso do diesel, a exposição é particularmente importante porque entre um quarto e quase um terço do consumo brasileiro depende de produto importado.
Também será necessário acompanhar a diferença entre os preços praticados pela Petrobras e os valores internacionais, além da capacidade do governo de sustentar subsídios sem ampliar excessivamente o impacto sobre as contas públicas.
Para a população, o efeito mais amplo poderá aparecer não somente no posto de combustível, mas também no custo dos alimentos, fretes e produtos transportados por rodovias.
A combinação de petróleo acima de US$ 100, diesel em níveis recordes no exterior, dificuldades logísticas no Oriente Médio e redução do refino russo coloca novamente a energia entre os principais riscos para a inflação mundial.
No Brasil, onde o transporte de cargas depende fortemente do diesel, acompanhar o preço do combustível tornou-se novamente uma questão que vai muito além das bombas dos postos.

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