Mensagens obtidas pela Polícia Federal mostram que integrantes de um grupo ligado a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, avaliaram negativamente a saída do ministro Dias Toffoli da relatoria das investigações sobre o banco no Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo neste domingo (13), os diálogos fazem parte do material reunido pela PF e posteriormente encaminhado ao Supremo. Os investigadores identificam o grupo como “A Turma” e afirmam que seus integrantes prestavam serviços sob ordens de Vorcaro.
Em uma das conversas analisadas pela investigação, Bruno Correa Lopes, apontado pela PF como responsável pela compra de imóveis e intermediação de negócios da família Vorcaro, comenta com Manoel Mendes Rodrigues, conhecido como Manolo, sobre o agravamento da situação após a mudança na relatoria do caso no STF.
“Está piorando muito rápido agora que saiu do Toffoli”, escreveu Bruno em 27 de fevereiro deste ano.
A frase aparece em uma sequência de diálogos em que os dois discutem o avanço das investigações, negócios da família Vorcaro e a necessidade de acelerar determinadas operações.
O conteúdo revela a percepção dos interlocutores sobre a troca no Supremo, mas, isoladamente, não demonstra que Toffoli tenha atuado para beneficiar o grupo ou que os integrantes tivessem controle sobre decisões do ministro.
QUEM ERA “A TURMA”, SEGUNDO A POLÍCIA FEDERAL
A Polícia Federal afirma que “A Turma” era formada por seis integrantes e recebia cerca de R$ 400 mil por mês.
De acordo com a investigação, o dinheiro saía de empresas ligadas ao grupo empresarial de Vorcaro e chegava aos integrantes por intermédio de uma empresa de Felipe Mourão, conhecido como Sicário.
Mourão, apontado como um dos integrantes do grupo, morreu após ser detido pela Polícia Federal.
A PF atribui ao grupo atividades como intimidação de pessoas, compra de servidores públicos e invasão de sistemas oficiais em busca de informações reservadas. Essas são conclusões apresentadas pelos investigadores e ainda devem ser analisadas no âmbito dos processos correspondentes.
Entre os integrantes identificados está Bruno Correa Lopes, que, segundo os investigadores, atuava na aquisição de imóveis e na intermediação de negócios relacionados à família Vorcaro.
Manoel Mendes Rodrigues, o Manolo, também aparece nas investigações da Operação Compliance Zero.
MENSAGENS MOSTRAM PRESSA COM NEGÓCIOS
Os diálogos analisados pela Polícia Federal mostram preocupação com o avanço das investigações e uma corrida para concluir negócios.
Em uma conversa de 27 de fevereiro, Manolo enviou a Bruno uma reportagem sobre supostos desvios envolvendo Daniel e Henrique Vorcaro.
Na sequência, os dois passaram a tratar da deterioração dos negócios da família.
Bruno afirmou que imóveis estavam sendo vendidos por valores inferiores aos que atribuía aos bens e relacionou as negociações ao receio de perda do patrimônio.
Em um dos exemplos mencionados no diálogo, ele falou sobre uma casa que teria valor de R$ 40 milhões e estaria sendo negociada por R$ 20 milhões.
As mensagens também mostram Bruno cobrando documentos e afirmando que o tempo estava correndo.
A reportagem não afirma que essas vendas, por si mesmas, constituam crime. Os diálogos são elementos analisados pela PF dentro de uma investigação mais ampla.
TROCA DE RELATORIA OCORREU EM FEVEREIRO
Dias Toffoli deixou a relatoria do caso Master em 12 de fevereiro.
Segundo a Folha, a mudança ocorreu depois de revelações sobre ligações envolvendo o ministro e o empreendimento do resort Tayayá.
A Maridt, empresa de José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro, possuía participação no negócio.
Foi nesse contexto que, pouco mais de duas semanas depois da troca de relator, Bruno escreveu a Manolo que a situação estava “piorando muito rápido”.
Daniel Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março, poucos dias depois da conversa.
Naquele período, a CPMI do INSS também avançava sobre questões relacionadas ao Banco Master, outro assunto mencionado nos diálogos entre os integrantes investigados.
A preocupação demonstrada pelo grupo após a saída de Toffoli é um dado registrado nas conversas. Isso não equivale, entretanto, à comprovação de que o ministro tenha oferecido proteção aos investigados enquanto esteve à frente do caso.
NEGÓCIOS DA FAMÍLIA VORCARO APARECEM NOS DIÁLOGOS
Parte das conversas também envolve Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.
Segundo a investigação, Bruno e Manolo prestavam serviços relacionados à compra e venda de terrenos para a família e discutiram em diferentes momentos o envio de documentos e a aceleração de negociações imobiliárias.
Em mensagens de dezembro de 2025, Bruno fez acusações contra Henrique e afirmou ter presenciado conflitos financeiros entre pai e filho.
Essas declarações aparecem em conversas privadas obtidas pela investigação e representam afirmações de Bruno, não conclusões judiciais sobre os fatos narrados.
Em março, após as prisões de Daniel Vorcaro e Felipe Mourão, os interlocutores voltaram a tratar da possibilidade de avanço das investigações sobre Henrique.
O pai do banqueiro acabou preso em 14 de maio.
GRUPO TINHA ATÉ PERÍODO DE FÉRIAS, APONTAM MENSAGENS
Outras conversas analisadas pela PF mostram detalhes sobre a organização interna de “A Turma”.
Segundo o relatório policial, integrantes do grupo chegaram a prever férias no período de fim de ano.
Em dezembro de 2023, o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado pelos investigadores como líder do grupo, teria cobrado uma definição sobre demandas pendentes porque os integrantes entrariam em período de férias.
A mensagem foi encaminhada a Vorcaro por Felipe Mourão.
O episódio é utilizado pela investigação como um dos elementos para descrever a estrutura e a regularidade das atividades atribuídas ao grupo.
MATERIAL FOI ENCAMINHADO AO STF
Os diálogos fazem parte do material obtido pela Polícia Federal nas investigações e encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
Na sexta-feira (11), o STF retirou o sigilo de diversas peças relacionadas ao Banco Master, ampliando o acesso a documentos que integram as diferentes frentes da investigação.
As novas mensagens acrescentam informações sobre o comportamento e as preocupações de pessoas que, segundo a PF, atuavam para a família Vorcaro enquanto as investigações avançavam.
Um dos trechos de maior repercussão é justamente a avaliação feita após a saída de Dias Toffoli da relatoria.
A mensagem demonstra que integrantes investigados consideraram a mudança desfavorável aos interesses da família Vorcaro. Ela não permite concluir, por si só, que Toffoli tenha praticado irregularidades ou tomado decisões para proteger o grupo.
As condutas atribuídas a “A Turma”, assim como as demais suspeitas relacionadas ao Banco Master, continuam sujeitas à apuração e às decisões judiciais correspondentes.

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