A Polícia Civil de São Paulo identificou que grupos responsáveis pelo aliciamento e pela extorsão de crianças e adolescentes na internet passaram a operar com uma estrutura semelhante à de organizações criminosas. Segundo investigadores, essas redes contam com líderes, administradores, moderadores e divisão de funções, reproduzindo um modelo hierárquico semelhante ao utilizado por facções criminosas.
As investigações são conduzidas pelo Núcleo de Operações e Articulações Digitais (Noad), especializado em crimes praticados no ambiente virtual. De acordo com a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono, responsável pelo núcleo, existe uma cadeia de comando bem definida, com distribuição de tarefas entre os integrantes e atuação coordenada em diferentes plataformas digitais.
O recrutamento das vítimas costuma começar em jogos online populares, como Roblox, Minecraft e Free Fire, além de redes sociais e aplicativos de mensagens. Após conquistar a confiança da criança ou do adolescente, os criminosos obtêm informações pessoais, fotografias e vídeos, que passam a ser utilizados em chantagens e extorsões, prática conhecida como sextorsão.
Segundo a polícia, os casos investigados revelam um cenário de extrema violência psicológica. Há registros de vítimas coagidas a praticar automutilação, gravar atos de violência contra si mesmas e produzir novos conteúdos sob ameaça de terem imagens íntimas divulgadas. O material é armazenado e compartilhado entre integrantes dos grupos, ampliando o ciclo de exploração.
As investigações apontam que os grupos atuam em diferentes estados brasileiros, demonstrando que o problema não está restrito a uma região específica. Além das plataformas de comunicação, parte da organização utiliza ambientes da dark web para armazenar conteúdos ilegais e comercializar dados, movimentando recursos por meio de criptomoedas e outros mecanismos que dificultam o rastreamento financeiro.
O advogado criminalista Hélio Ramos, ouvido pela reportagem da Folha de S.Paulo, afirma que essas organizações também exploram moedas virtuais de jogos, serviços por assinatura e negociações em plataformas clandestinas. Segundo ele, a monetização movimenta milhões de reais e representa um dos fatores que sustentam essas redes criminosas.
Desde sua criação, o Noad já mapeou mais de 1.900 alvos e participou de mais de 600 prisões relacionadas a crimes praticados no ambiente digital. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram ainda que os registros de produção e distribuição de material de exploração sexual infantil cresceram 176,7% entre 2021 e 2025, enquanto os casos de cyberbullying aumentaram 67,3% no mesmo período.
As autoridades reforçam que a prevenção continua sendo a principal ferramenta de proteção. A orientação é que pais e responsáveis acompanhem a rotina digital dos filhos, conheçam os aplicativos utilizados, conversem sobre os riscos das amizades virtuais e observem mudanças de comportamento que possam indicar situações de violência ou exploração.

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