O Isabelense - Notícias de Santa Isabel em tempo real!

Aguarde, carregando...

Terça-feira, 09 de Dezembro 2025

Colunas/ENTRE LIKES E SILÊNCIOS

Reputação Indelegável: O líder é o guardião da coerência entre discurso e prática

Em um mundo obcecado por 'likes' e narrativas polidas, a credibilidade se tornou o ativo mais volátil. Ela não mora no post da agência, mas na atitude diária da gestão.

Reputação Indelegável: O líder é o guardião da coerência entre discurso e prática
IA
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Vamos ser francos: vivemos da performance. Nossas vidas são cuidadosamente editadas para caber em timelines que não pausam para respirar. Nessa vitrine infinita, líderes e empresas não vendem apenas produtos; vendem narrativas. O CEO se torna "humanizado" no LinkedIn, a empresa "abraça causas" urgentes no Instagram, e o discurso sobre "propósito" e "cultura" nunca foi tão inflacionado.

É exatamente aí, nesse excesso de discursos, que surge a maior tensão do nosso tempo: o abismo crescente entre a imagem que projetamos e a realidade que vivemos.

Assistimos a uma espetacularização da gestão. O líder aprende, em treinamentos, a parecer autêntico. A equipe de marketing desenha um paraíso corporativo em campanhas de "employer branding". O problema é que, enquanto a vitrine digital está perfeitamente polida, os bastidores — a rotina interna, o dia a dia da operação — rangem sob o peso da incoerência.

É aqui que mora a ilusão mais perigosa da gestão moderna: a crença de que a reputação pode ser terceirizada.

A lógica é sedutora. Contrata-se a agência de Relações Públicas, o time de social media, o consultor de cultura. O líder, então, delega a comunicação de sua reputação e acredita que o trabalho está feito.

Mas reputação não é briefing. Não é post. Não é campanha. Reputação é rastro. É o resíduo cumulativo de todas as ações, decisões, contratações, demissões e, principalmente, de todas as omissões.

O que vemos é um "culture washing" generalizado. Empresas que gastam rios de dinheiro em campanhas de diversidade, mas cujos processos seletivos são fechados. Gestores que publicam textos inspiradores sobre saúde mental, enquanto suas equipes quebram sob metas desumanas.

E quando a FGV nos diz que 61% dos brasileiros estão desengajados no trabalho, de que estamos falando? Não é um número; é um sintoma. É o resultado direto dessa esquizofrenia corporativa: o funcionário lê o post sobre "equilíbrio" na segunda e recebe a demanda urgente no sábado. A confiança não racha. Ela pulveriza.

O erro fatal, para mim, é confundir comunicação com validação. A comunicação, no seu melhor papel, deveria ser a reportagem de uma verdade interna. Quando a empresa é coerente, o marketing não cria a imagem; ele a amplifica. O que vemos é o oposto: a comunicação sendo usada para criar uma ficção, uma realidade paralela que não encontra respaldo no dia a dia.

E o que acontece quando essa bolha estoura? A credibilidade, esse ativo que se constrói em anos e se perde em segundos, vira pó. Porque hoje, os bastidores têm megafone. O Glassdoor, os grupos de WhatsApp, o "Reclame Aqui"... são os tribunais da verdade, onde a narrativa oficial é desmentida pela experiência real. O que sobra é o cinismo. Os colaboradores, que deveriam ser os embaixadores da marca, tornam-se seus maiores detratores. O engajamento não morre por falta de benefício; morre por excesso de hipocrisia. E essa reputação de fachada? É um castelo de cartas. Não sobrevive à primeira ventania.

Se a reputação não se terceiriza, o caminho é dolorosamente simples: internalizar. A responsabilidade é indelegável. Ela é do líder, seja ele o dono do comércio na esquina ou o CEO da multinacional.

Isso exige que o líder deixe de ser um mero "porta-voz" e se torne o "guardião" da cultura. O guardião zela pela integridade da promessa. Ele garante, com a própria atitude, que o discurso público é vivido internamente.

Se a empresa fala em transparência, é o líder quem comunica a decisão difícil com clareza. Se fala em inovação, trata o erro como processo, não como um crime de RH. Se fala em humanização, ouve de verdade e demonstra respeito, especialmente sob pressão.

Nesse cenário, o marketing precisa mudar de função. De "construtor da imagem" para "auditor da coerência", com a coragem de dizer ao chefe: "Não podemos falar isso publicamente, porque nós ainda não somos isso".

Sim, coerência custa caro. Custa demitir o "astro" de alta performance que é culturalmente tóxico. Custa dizer "não" ao cliente lucrativo que fere os princípios da empresa. Custa investir em treinamento real, não em palestra motivacional vazia. É um preço pago diariamente, não apenas quando a crise bate à porta.

O like é sedutor, mas é efêmero. O silêncio da coerência interna é o que constrói legado. A reputação não está no que a empresa grita em suas campanhas, mas no que ela sussurra em suas reuniões de corredor.

A grande questão, portanto, não é "como podemos parecer melhores?", mas "como podemos ser melhores?". Estamos dispostos, como líderes e gestores, a pagar o preço da coerência? Estamos dispostos a ser os guardiões da nossa própria narrativa, ou continuaremos a delegar nossa história, esperando que ninguém perceba que a voz não é nossa?

Comentários:
LANA M MORAIS

Publicado por:

LANA M MORAIS

Jornalista com mais de 20 anos de experiência, pós-graduada em comunicação política e gestão de empresas de radiodifusão, atuou em grandes veículos nacionais e hoje assina coluna Entre Likes e Silêncios no portal O Isabelense.

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp O Isabelense
Envie sua mensagem, vamos responder assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR