A ideia de que a Geração Z rejeita a carteira assinada e prefere trabalhar por conta própria não encontra uma resposta tão simples nos números. Uma pesquisa inédita do Instituto Ipsos em parceria com o Estadão mostra uma juventude dividida entre a autonomia profissional e a segurança proporcionada pelo emprego formal.
Entre brasileiros de 16 a 29 anos, 35% apontam o trabalho autônomo como a modalidade mais interessante, enquanto 27% preferem o emprego com carteira assinada. A maior parcela, 37%, considera os dois modelos igualmente atraentes.
Os dados fazem parte de uma pesquisa sobre a Geração Z brasileira e revelam uma relação com o trabalho mais híbrida do que sugerem estereótipos frequentemente associados aos jovens.
A Geração Z é considerada, no levantamento, aquela formada por pessoas nascidas entre 1996 e 2012. A pesquisa, entretanto, considera nas questões sobre trabalho os entrevistados de 16 a 29 anos.
Entre as gerações analisadas, a Z é a única na qual a preferência exclusiva pelo trabalho autônomo supera a escolha pela carteira assinada. Ainda assim, somar essa diferença à parcela de 37% que vê vantagens nas duas modalidades mostra que não há uma rejeição generalizada ao emprego formal.
RENDA MUDA A RELAÇÃO COM A CLT
A divisão muda quando os pesquisadores analisam as respostas de acordo com a classe social.
Entre os brasileiros da classe C, 40% apontam a CLT como modelo mais atraente. Nas classes D e E, a proporção aumenta para 44%.
Nas classes A e B, 32% preferem a carteira assinada, 29% escolhem o trabalho autônomo e 38% consideram as duas possibilidades igualmente interessantes.
Os números indicam que a relação entre os jovens e o emprego formal não pode ser explicada apenas por uma suposta preferência geracional por liberdade ou flexibilidade.
A realidade financeira, a estabilidade e as oportunidades disponíveis no mercado também interferem nessa escolha.
Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, os jovens dessa geração chegaram ao mercado de trabalho em um período marcado pela pandemia e posteriormente passaram a enfrentar custo de vida mais elevado, redução das oportunidades totalmente remotas e incertezas relacionadas ao impacto da inteligência artificial sobre cargos de entrada.
Quando o emprego disponível não reúne remuneração considerada adequada, benefícios e alguma flexibilidade, o trabalho independente passa a aparecer como alternativa para parte desse público.
DINHEIRO APARECE COMO PRIORIDADE
Outro resultado da pesquisa contraria a percepção de que a Geração Z colocaria qualidade de vida e flexibilidade sempre à frente do salário.
Quando os jovens de 16 a 29 anos foram questionados sobre o fator mais importante para sair ou permanecer em um emprego, 33% escolheram a remuneração.
O resultado não significa que flexibilidade, ambiente de trabalho ou equilíbrio entre vida pessoal e profissional tenham deixado de ser importantes. A pesquisa mostra, porém, que a renda continua ocupando posição central nas decisões profissionais dos jovens.
Patrícia Pavanelli, diretora de opinião pública do Instituto Ipsos e líder da pesquisa, explica que o salário funciona como uma condição básica antes da avaliação de outros atributos de uma vaga.
Na avaliação apresentada ao Estadão, a flexibilidade é valorizada, mas não consegue substituir a necessidade de uma remuneração adequada.
TRABALHAR POR CONTA PRÓPRIA NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE EMPREGAR OUTRAS PESSOAS
A presença dos jovens no trabalho independente também aparece em outros indicadores apresentados pela reportagem.
No final de 2025, o Brasil tinha 4,9 milhões de donos de negócios com até 29 anos, segundo levantamento do Sebrae elaborado a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE.
Um dado, porém, ajuda a dimensionar melhor esse universo: somente 7% eram empregadores.
Isso significa que a existência de milhões de jovens classificados como donos de negócios não deve ser interpretada automaticamente como a existência do mesmo número de empresas com funcionários. Uma parcela expressiva trabalha por conta própria.
O trabalho autônomo pode oferecer maior liberdade para organizar horários, escolher projetos e administrar a própria atividade, mas também transfere ao profissional responsabilidades que, em uma relação formal de emprego, ficam distribuídas entre trabalhador e empresa.
A própria reportagem apresenta exemplos de jovens que encontraram no trabalho independente maior possibilidade de renda e flexibilidade, mas que também precisam administrar oscilações de receita, custos e organização financeira.
CARTEIRA ASSINADA CONTINUA ATRAINDO PARTE DA GERAÇÃO
Do outro lado estão jovens que encontram no emprego formal justamente a combinação que procuram: previsibilidade de renda, benefícios, proteção trabalhista, possibilidade de crescimento e, em alguns casos, flexibilidade.
Um dos exemplos apresentados pelo Estadão é o da estudante Beatriz Dolapci, de 23 anos, que está há cinco anos no mesmo emprego com carteira assinada.
O período chama atenção diante de outro dado citado na reportagem: a média de permanência de um jovem em um mesmo trabalho seria de nove meses, segundo informações da plataforma de recrutamento Gupy.
Beatriz relata ter salário acima do mercado, benefícios e possibilidade de trabalhar remotamente. Sua experiência ajuda a demonstrar que a preferência pelo emprego formal também depende das condições oferecidas pela vaga.
A própria jovem reconhece que sua realidade não corresponde à encontrada por todos os trabalhadores de sua faixa etária.
GERAÇÃO Z NÃO CABE EM UMA ÚNICA DEFINIÇÃO
Os resultados ajudam a questionar duas simplificações frequentes: a de que os jovens não querem emprego formal e a de que procuram apenas estabilidade.
Na prática, 35% apontam o trabalho autônomo como mais interessante, 27% preferem a CLT e 37% enxergam vantagens equivalentes nas duas modalidades.
Para Patrícia Pavanelli, do Ipsos, essa geração apresenta uma relação híbrida com o mercado de trabalho.
Um jovem pode trabalhar com carteira assinada atualmente e considerar uma atividade autônoma no futuro, ou fazer o caminho inverso. A proteção social e a previsibilidade proporcionadas pelo emprego formal continuam sendo reconhecidas, ao mesmo tempo em que existe maior abertura para modelos independentes de trabalho.
A escolha, portanto, não aparece na pesquisa como uma simples disputa entre ter patrão ou ser o próprio chefe.
Salário, benefícios, estabilidade, flexibilidade, possibilidades de crescimento e condições concretas do mercado ajudam a determinar qual modelo parece mais interessante em diferentes momentos da vida profissional.
A pesquisa integra uma série do Estadão sobre a Geração Z brasileira. Além da relação entre CLT e trabalho autônomo, o levantamento aborda temas como interesse por cargos de liderança, receio de substituição pela inteligência artificial e importância atribuída ao ensino superior na busca por emprego.

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