Pequenos comerciantes de São Paulo estão se preparando para o fim da escala 6x1 com três saídas: fixar as folgas de cada funcionário, contratar mais gente e chamar parentes para cobrir os dias de descanso da equipe. A falta de mão de obra e um ano difícil de vendas, no entanto, tornam a conta mais apertada. As informações são de reportagem publicada nesta quarta-feira (21) pela Folha de S.Paulo, com lojistas da Lapa e de Santa Cecília, na capital.
O fim da 6x1, em que se trabalha seis dias por semana com um de folga, foi promulgado pelo Congresso Nacional em 16 de outubro e passa a valer em dezembro. O texto prevê a escala 5x2, com dois dias de descanso remunerado por semana, e reduz a jornada de 44 para 42 horas semanais e, depois, para 40 horas, sem corte de salário.
FOLGAS FIXAS E CONTRATOS NOVOS
A dona de uma marca de roupas femininas, Paula Goldberg, pretende tirar o trabalho de sábado do setor administrativo, que hoje cumpre meio período no dia para fechar as 44 horas. Para os demais funcionários, a ideia é fixar as folgas: domingo, quando as lojas já não abrem, e mais um dia no começo da semana. O RH e as equipes contábil e fiscal já preparam a mudança dos contratos. Para ela, a folga em dia fixo ajuda o trabalhador a se planejar e a empresa a saber em que dias precisa de mais gente. Paula também acredita que a produtividade vai subir e a rotatividade, cair.
A FALTA DE GENTE PARA CONTRATAR
O maior receio de Paula é encontrar candidatos. Segundo ela, há meses a empresa tem vagas abertas que não consegue preencher, e a redução da jornada exigirá mais pessoas. Esse cenário, diz, também enfraquece o argumento de que a mudança provocará demissões em massa: sem mão de obra disponível, não faria sentido desligar alguém.
Uma lojista da região central, Clara Santos Abreu, 41, trabalha sozinha de segunda a segunda e busca um funcionário há tempos. Para cumprir a nova escala, calcula que precisaria de dois, mas prefere pagar hora extra a um só. Treinar quem chega, diz, é outro obstáculo: o novato precisa saber onde estão peças, cores e tamanhos, e a demora irrita o cliente. Com freelancers ou profissionais PJ, a rotatividade a obrigaria a treinar o tempo todo.
A FAMÍLIA NA ESCALA
Sônia Alves, 47, toca com o irmão e duas funcionárias uma loja de roupas de família que abre de segunda a segunda. Com o fim da 6x1, cada funcionária folgará domingo e segunda, e os parentes entrarão nos dias de folga: os sobrinhos, de 16 e 17 anos, como menores aprendizes, além do pai e da mãe. Ela avalia que o cenário é pior para quem não tem esse apoio, como as lojas de bairro e os mercadinhos com dois ou três funcionários. Segundo Sônia, o governo mudou a escala, mas não criou auxílio, como redução de impostos ou crédito, para ajudar a contratar.
O RECEIO DOS MAIORES CUSTOS
O dono de uma padaria em Santa Cecília, Daniel Oliveira Marques, 35, tem 27 funcionários em dois turnos de oito horas, mais uma pessoa de madrugada. Ele calcula que precisará de seis ou sete a mais, o que elevaria a folha em pelo menos R$ 12 mil por mês, sem contar encargos. Diz que terá de repassar a conta ao cliente e que o impacto é maior para os pequenos, já que o grande comércio tem margem maior e benefícios fiscais. Para ele, o fim da 6x1 será “catastrófico” para os pequenos comércios.
Na Lapa, a gerente de uma loja de varejo, Márcia Ribeiro Silva, 48, diz que os empregadores ainda não sabem como vão se adaptar. Uma das ideias que ouviu é contratar um funcionário pago por hora trabalhada, com carteira assinada, o que sairia mais caro. Ela afirma que há microempreendedores da região que pensam em demitir e assumir pessoalmente a escala para cobrir a folga, sem contratar.
A lojista Daniela Soares Fernandes, 51, tem há 24 anos uma loja de roupas femininas na Lapa, com três funcionárias. Ela diz que as vendas caíram nos últimos meses e que o movimento na região diminuiu desde a pandemia, com muitos imóveis fechados na rua 12 de Outubro. No fim do ano, chegava a ter oito vendedoras e hoje tem três. Para o Natal, só deve contratar reforço temporário, e a decisão de manter alguém fixo a partir de janeiro dependerá do movimento. Com a nova escala, a loja ficará com uma pessoa a menos três vezes por semana. Daniela diz que, no cenário atual, não dá para contratar e aguarda orientação do escritório de contabilidade.
O QUE DIZ O SEBRAE
O presidente do Sebrae, Décio Lima, afirmou à Folha que o fim da 6x1 é “a humanização da economia”. Segundo ele, a medida também estimula os pequenos negócios, porque os trabalhadores terão mais tempo livre para lazer, turismo, bares e restaurantes. Para lojas pequenas que abrem todos os dias, a entidade recomenda reorganizar turnos e manter a captação de clientes ativa nos dias de folga da equipe, com ferramentas como o Perfil da Empresa no Google.
Na transição, o Sebrae diz oferecer cursos de inteligência artificial e o programa Brasil Mais Produtivo, que financia consultorias para micro, pequenas e médias empresas. A entidade mantém ainda uma página com modelos de conversão da 6x1 para a 5x2 e orientações para reorganizar horários, contratos e horas extras.
O QUE A REPORTAGEM NÃO MOSTRA
Os relatos vêm de comerciantes de dois bairros da capital paulista e não representam o conjunto dos pequenos negócios. A reportagem não traz números sobre quantas lojas pretendem demitir, contratar ou reduzir o horário, e as estimativas de custo são dos próprios lojistas.
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