Aguarde, carregando...

Terça-feira, 20 de Outubro 2026
Tecnologia

Falha expõe 58 mil câmeras do Smart Sampa; Prefeitura de SP diz que servidor vazou

Informações restritas ficaram cerca de 11 meses em repositório público; Prefeitura diz que houve vazamento e investiga agente

Falha expõe 58 mil câmeras do Smart Sampa; Prefeitura de SP diz que servidor vazou
Imagem gerada com auxílio de inteligência artificial
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Uma falha de segurança no Smart Sampa, o sistema de videomonitoramento da cidade de São Paulo, permitiu por cerca de 11 meses o acesso indevido a mais de 58 mil câmeras ligadas à plataforma, segundo reportagem do UOL publicada nesta terça-feira (20). A Prefeitura de São Paulo nega fragilidade no sistema e afirma que houve um vazamento ilegal de dados cometido por um servidor, já identificado e afastado.

De acordo com o jornalista Artur Rodrigues, informações que deveriam ser restritas e sigilosas estavam em um repositório público na internet. A reportagem usou esse material para tentar entrar na plataforma e conseguiu. Os arquivos foram retirados do ar depois que a Prefeitura foi alertada.

O QUE FICOU EXPOSTO

Leia Também:

Segundo o UOL, o repositório reunia 181 logins e senhas de usuários autorizados do sistema, dados de mais de 6 mil agentes de segurança e instruções que permitem reproduzir o Smart Sampa em qualquer computador ou celular. Com base nesse conteúdo, a reportagem diz ter acessado a plataforma por meio de uma interface criada para espelhar as informações do programa, montada com um comando de inteligência artificial a partir do material aberto.

Ao navegar pelo mapa da cidade, o jornalista relata ter visto imagens de ruas, de bebês em creches, de crianças dentro de escolas, de pacientes em hospitais, de guardas-civis em suas bases e de centros de atendimento a dependentes químicos mantidos pela Prefeitura. A reportagem também gravou acenos para oito câmeras de totens privados em uma rua dos Campos Elíseos, no centro, todas conveniadas ao programa.

Os logins expostos davam acesso direto à plataforma da Sentinelx, empresa que fornece a tecnologia usada pelo Smart Sampa, sem a exigência de verificação em duas etapas. Depois de questionada pelo UOL, a Prefeitura passou a adotar esse recurso. A Sentinelx também foi procurada e não se manifestou. Dentro da plataforma, ainda conforme o relato, é possível pesquisar nomes, CPFs e placas de veículos e consultar boletins de ocorrência.

Um especialista em tecnologia ouvido pela reportagem apontou ainda uma brecha que permitiria inserir dados no sistema, porque algumas interfaces que recebem registros de reconhecimento de placas e rostos não verificam de forma adequada a identidade de quem envia as informações.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

O professor Rafael Alcadipani, da FGV, especialista em segurança pública, classificou o caso como um problema de segurança nacional. “Consigo saber onde as autoridades estão, onde as viaturas estão, onde os equipamentos de defesa da cidade estão se deslocando. É gravíssimo”, afirmou.

O pesquisador Pedro Saliba, da Data Privacy Brasil, falou em “falha gravíssima em termos de privacidade e vigilância”. Para ele, mesmo na segurança pública o tratamento de dados precisa seguir os princípios da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), como finalidade, necessidade, segurança e transparência, e a concentração de informações em sistemas de vigilância sem controles bem definidos amplia o risco de abuso de direitos.

A RESPOSTA DA PREFEITURA DE SÃO PAULO

Em nota enviada ao UOL, a Prefeitura afirma que não há “nenhuma fragilidade” nos mecanismos de segurança do Smart Sampa e que o episódio foi um vazamento ilegal de dados feito por um servidor, entre os mais de 7.500 agentes de segurança que trabalham com a plataforma. Segundo o texto, ele foi identificado, afastado e tem a conduta investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. A gestão trata o caso como ato criminoso.

A administração municipal também sustenta que o repositório retirado do ar não trazia menção a senhas de acesso, informa que não houve uso indevido da plataforma e critica a forma como a reportagem classificou o caso. Diz ainda que reforçou a segurança, com senhas exclusivas, autenticação em dois fatores e validação por código enviado por SMS para a criação de uma nova senha.

A nota acrescenta que o programa é fiscalizado pelo Tribunal de Contas do Município e conta com consultoria em governança e privacidade de dados, e que um relatório de transparência é enviado a cada semestre ao Ministério Público, já na terceira edição. Segundo a Prefeitura, o Smart Sampa contribuiu para a captura de 3.628 foragidos e a localização de 284 pessoas desaparecidas. As câmeras em equipamentos públicos, afirma, ficam em áreas de circulação comum, sem abranger consultórios, salas de atendimento ou ambientes assistenciais, e a captação de uma imagem não significa que a pessoa tenha sido cadastrada ou identificada.

COMO O SISTEMA FUNCIONA E ONDE JÁ HOUVE ERROS

O Smart Sampa, descrito como o maior sistema público de monitoramento por câmeras da América Latina, usa reconhecimento facial com inteligência artificial para localizar procurados pela Justiça, identifica veículos roubados e furtados e detecta possíveis clonagens de placas. Os policiais mais próximos da câmera que registrou a ocorrência são avisados por aplicativo. A Prefeitura divulga as mais de 3 mil prisões de foragidos feitas com apoio das câmeras em um painel de rua apelidado de “prisômetro”.

Segundo a reportagem, a Prefeitura não tem acesso ao código-fonte, aos modelos de inteligência artificial nem às bases de dados usadas no reconhecimento facial, que ficam sob controle da Sentinelx. A informação consta em resposta da Secretaria da Segurança Urbana a um pedido feito pela Lei de Acesso à Informação. O documento também reconhece que não há auditorias independentes dos modelos e que a fiscalização municipal se limita à verificação do cumprimento de requisitos técnicos, sem detalhá-los.

Em fevereiro de 2025, o índice mínimo de semelhança facial para disparar um alerta passou de 90% para 92%, medida adotada para reduzir abordagens equivocadas. Não há dados disponíveis sobre a taxa de erro do sistema. Relatórios de transparência da Prefeitura mostram que, entre novembro de 2024 e maio de 2026, 268 pessoas foram levadas a delegacias após alertas do reconhecimento facial e depois liberadas. Em 75 casos houve inconsistência na identificação do rosto, em 181 os mandados de prisão estavam desatualizados e 12 decorreram de problemas cadastrais. Os casos representam 7,9% das 3.400 conduções registradas no período.

Um dos episódios citados na reportagem terminou na Justiça. Em 22 de janeiro de 2026, um entregador que acompanhava a companheira grávida em uma Unidade Básica de Saúde do Parque do Carmo, na zona leste da capital, foi abordado por guardas-civis depois que o sistema indicou 97% de semelhança com um condenado por tráfico de drogas em Campinas. Poucos minutos depois, foi abordado também por policiais militares. Ele não foi levado à delegacia, mas alegou humilhação pública, e a Prefeitura e o Estado foram condenados a pagar R$ 10 mil a ele, conforme processo obtido pelo UOL.

O CONTRATO E A EMPRESA

A tecnologia do programa está sob responsabilidade de uma empresa que não existia quando a Prefeitura de São Paulo fez a licitação, em 2023. A Sentinelx foi criada um mês depois da assinatura do contrato e só passou a integrar formalmente o consórcio responsável pelo sistema por meio de um aditivo assinado em dezembro do ano passado, no lugar da Camerite. O consórcio Smart City, formado originalmente pelas empresas CLD, Flama Serviços, PK9 e Camerite, venceu a disputa com proposta de R$ 9,8 milhões por mês, e a habilitação para um contrato de R$ 588 milhões por cinco anos ocorreu em julho de 2023.

Duas concorrentes ficaram de fora: a L8 Group, que ofereceu R$ 9,2 milhões mensais, foi desclassificada, e a Line Service, que apresentou o mesmo valor do consórcio vencedor, pediu a própria desclassificação, alegando erro de digitação na proposta.

PROJETO INSPIRA OUTRAS PROPOSTAS

O Smart Sampa é a principal vitrine da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) na área de segurança. Inspirado no programa paulistano, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) prometeu criar o Smart Brasil, com 2 milhões de câmeras em todo o país, caso seja eleito.

A Sentinelx também busca vender a plataforma a outras cidades. Em seu site, cita convênios com as prefeituras de São José do Rio Preto e Catanduva, no interior paulista. Um dos argumentos de venda é justamente o controle de acesso ao sistema.

A reportagem do UOL pode ser lida na íntegra no site do veículo.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
O Isabelense

Publicado por:

O Isabelense

O Isabelense nasceu para informar Santa Isabel e cresceu para levar aos seus leitores tudo o que realmente importa. Notícias locais, regionais, nacionais e os acontecimentos que impactam o seu dia a dia, com rapidez, credibilidade e compromisso com...

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp O Isabelense
Envie sua mensagem, vamos responder assim que possível ; )