Uma reflexão publicada pela Folha de S.Paulo reacendeu um debate comum nos relacionamentos: demonstrar carinho faz a outra pessoa perder o interesse? A resposta apresentada pela autora é direta: não. Segundo o artigo, a ideia de que esconder sentimentos aumenta as chances de conquistar alguém é um comportamento construído socialmente e que acaba alimentando relações baseadas em insegurança e jogos emocionais.
A discussão parte da dúvida de um leitor que questiona se deveria deixar de demonstrar afeto depois de perceber que algumas mulheres perderam o interesse quando ele se mostrou carinhoso e disponível.
De acordo com a análise publicada pela Folha, durante muitos anos mulheres foram ensinadas a esconder o interesse como estratégia de conquista, ouvindo frases como "não seja muito disponível" ou "faça ele correr atrás". Hoje, segundo o texto, essa lógica também passou a influenciar muitos homens, que começam a acreditar que demonstrar sentimentos pode afastar possíveis parceiras.
A autora argumenta que esse raciocínio transfere para o afeto a responsabilidade pelo fim de uma relação. Na prática, porém, o motivo costuma ser outro: a ausência de reciprocidade. Em outras palavras, uma pessoa pode simplesmente deixar de desejar continuar um relacionamento, independentemente do quanto o outro tenha sido carinhoso.
O artigo também chama atenção para a mudança de comportamento masculino. Muitos homens passaram a falar mais sobre sentimentos e emoções, rompendo padrões tradicionais de masculinidade que desencorajavam demonstrações de vulnerabilidade. Quando uma relação termina, porém, alguns interpretam a rejeição como consequência desse comportamento, reforçando a ideia equivocada de que demonstrar carinho foi um erro.
Segundo a publicação, não existe uma fórmula capaz de garantir que uma relação dará certo. Ser atencioso, disponível e emocionalmente aberto pode favorecer conexões mais profundas, mas não garante que o interesse da outra pessoa será correspondido.
A reflexão também critica a chamada "meritocracia afetiva", conceito segundo o qual bastaria agir corretamente para conquistar o amor de alguém. Para a autora, relacionamentos envolvem fatores que vão além do comportamento individual, como desejo, compatibilidade, momento de vida e escolhas pessoais.
Outro ponto destacado é que transformar as relações em estratégias de conquista pode aumentar a ansiedade e dificultar vínculos saudáveis. Em vez de fortalecer conexões, jogos emocionais e a tentativa de parecer indiferente tendem a gerar insegurança, especialmente em pessoas que já passaram por experiências de abandono ou rejeição.
O texto cita ainda dados da pesquisa "Raio X da Vida Afetiva", desenvolvida pela autora em parceria com a psicanalista Camila Holpert. Segundo o levantamento, o maior obstáculo para os relacionamentos atualmente não é o excesso de afeto, mas o excesso de medo. Quatro em cada dez pessoas afirmam temer sofrer novamente em uma relação, enquanto três em cada dez têm medo de não serem suficientes e a mesma proporção teme ser abandonada ou traída.
Como conclusão, a reflexão publicada pela Folha de S.Paulo defende que demonstrar carinho não deve ser encarado como um defeito. Em vez de investir em estratégias para parecer mais distante, a autora sugere que as pessoas permaneçam abertas ao afeto, aceitem o término quando não houver reciprocidade e busquem relações em que o interesse seja compartilhado.

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