O anúncio da tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros feito pelo governo dos Estados Unidos já começou a gerar preocupação entre diversos setores da economia nacional. Associações empresariais afirmam que a medida poderá reduzir exportações, comprometer investimentos e provocar demissões caso não haja uma solução negociada entre os dois países.
Para quem mora em Santa Isabel, o tema pode parecer distante, mas seus reflexos podem chegar à economia local. Quando grandes indústrias exportadoras reduzem produção ou deixam de vender ao exterior, há impactos sobre empregos, fornecedores, arrecadação e, em alguns casos, sobre os preços praticados no mercado interno.
A nova tarifa entra em vigor no próximo dia 22 de julho e atinge setores que ficaram fora da lista de exceções divulgada pelo governo americano. Entidades empresariais afirmam que continuarão tentando reverter a decisão, mas admitem que muitas empresas já calculam perdas.
Uma das maiores preocupações está na indústria calçadista. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), os Estados Unidos representam aproximadamente 20% de todas as exportações brasileiras do setor. Com a nova tarifa, a carga total sobre os produtos brasileiros chega a 35%, somando a sobretaxa de 25% aos 10% que já incidiam anteriormente.
A entidade calcula que as exportações brasileiras de calçados deverão cair 7,1%, piorando em 3,5 pontos percentuais as projeções feitas antes da decisão americana. Somente neste ano, as vendas para os Estados Unidos já somaram US$ 85 milhões, o equivalente a cerca de R$ 431 milhões, mas representam uma queda de 23% em comparação com 2025.
Segundo a associação, muitas fábricas produzem calçados desenvolvidos especificamente para o mercado norte-americano, o que dificulta redirecionar essa produção para outros países. Caso a situação permaneça, empresas do interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul poderão reduzir postos de trabalho.
Outro segmento preocupado é o de máquinas e equipamentos. A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) afirma que os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras do setor, que movimentaram aproximadamente US$ 3,2 bilhões, cerca de R$ 16,2 bilhões, em 2025.
O setor sucroenergético também criticou a medida. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a tarifa sobre o etanol brasileiro não encontra respaldo nas regras internacionais de comércio e defende que o aumento da produção nacional, especialmente de etanol de milho, explica a redução das importações do produto americano.
A preocupação também alcança a indústria madeireira. Segundo a Ibá, que representa empresas de árvores cultivadas para fins industriais, alguns produtos já apresentam retração de até 50% nas exportações para os Estados Unidos no primeiro semestre deste ano.
Os setores moveleiro e têxtil também avaliam que a nova cobrança reduzirá a competitividade dos produtos brasileiros. No caso da indústria de móveis, as exportações para os Estados Unidos já registram queda de 41,7% entre janeiro e maio deste ano na comparação com igual período de 2025.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) informou que, apenas no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões, aproximadamente R$ 13,1 bilhões. Segundo a entidade, 20 dos 27 estados brasileiros já registraram redução nas vendas ao mercado americano.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) classificou a medida como especialmente prejudicial para empresas brasileiras que exportam produtos de maior valor agregado, afirmando que a nova tarifa aumenta os desafios enfrentados pela indústria nacional.
Já representantes de pequenas e médias empresas defendem que a prioridade seja o diálogo entre os governos para evitar uma escalada comercial. Segundo a Confederação Nacional de Jovens Empresários (Conaje), negócios de menor porte possuem pouca capacidade para absorver novos custos ou redirecionar rapidamente suas exportações.
Apesar da preocupação, todas as entidades ouvidas pela Folha de S.Paulo afirmam que ainda esperam uma negociação diplomática que permita reduzir ou até reverter a nova tarifa antes que seus efeitos econômicos sejam plenamente sentidos.
Fonte: Folha de S.Paulo.

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