A tradicional redação do Enem poderá passar pela maior reformulação de seu formato em anos. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) discute substituir o atual texto dissertativo-argumentativo de até 30 linhas por produções escritas distribuídas entre quatro áreas do conhecimento.
A proposta ainda é preliminar, não foi aprovada e não altera o Enem de 2026. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (17), as mudanças estão sendo discutidas para uma possível implementação a partir de 2028.
Pelo modelo em análise, o candidato deixaria de produzir apenas uma redação concentrada em um único tema e passaria a responder por escrito a propostas relacionadas a linguagens, ciências humanas, ciências da natureza e matemática.
A divisão discutida atualmente prevê 20 linhas para linguagens, dez para ciências humanas, dez para ciências da natureza e dez para matemática.
No total, seriam até 50 linhas de produção escrita, contra as 30 linhas destinadas atualmente à redação.
O Inep confirmou à Folha a existência de uma proposta preliminar, mas ressaltou que não existe, até o momento, uma decisão final ou posição consolidada sobre como o novo modelo seria implementado. A previsão é que a discussão seja finalizada até o fim deste ano.
O QUE PODERIA MUDAR
Hoje, o participante do Enem recebe uma proposta de redação e precisa produzir um texto dissertativo-argumentativo sobre o tema apresentado.
No formato discutido pelo Inep, a produção escrita seria distribuída pelas áreas avaliadas no exame.
A proposta atualmente analisada estabelece:
Linguagens: 20 linhas
Ciências Humanas: 10 linhas
Ciências da Natureza: 10 linhas
Matemática: 10 linhas
A soma chega a 50 linhas.
A mudança não significaria simplesmente aumentar o tamanho da atual redação de 30 para 50 linhas. A lógica seria diferente: em vez de concentrar a avaliação da escrita e da argumentação em um único tema, o estudante teria de demonstrar capacidade de desenvolver raciocínios escritos relacionados a diferentes campos do conhecimento.
Participantes das reuniões técnicas ouvidos pela Folha afirmam que o objetivo seria avaliar uma diversidade maior de raciocínio dos estudantes.
COMO SERIA UMA REDAÇÃO DE MATEMÁTICA?
A menção a dez linhas de matemática pode causar estranhamento porque a proposta não significa, necessariamente, escrever uma redação tradicional sobre a disciplina.
A reportagem informa que a produção escrita seria desmembrada por áreas, mas não detalha como seriam formuladas as questões, quais gêneros textuais seriam exigidos, como o estudante desenvolveria a resposta de matemática ou quais critérios seriam utilizados para corrigir cada uma das quatro produções.
Esses são justamente alguns dos pontos que ainda precisam ser definidos caso a reformulação avance.
Também não está estabelecido como as 50 linhas seriam distribuídas durante os dias de prova, qual seria o peso de cada produção na nota final ou se continuaria existindo uma nota específica denominada “redação”.
Portanto, neste momento, não é possível afirmar como será a nova redação do Enem. Existe uma proposta em discussão, não um formato aprovado.
MUDANÇA ESTÁ LIGADA A UMA NOVA FUNÇÃO DO ENEM
A discussão ocorre porque o próprio papel do Enem deverá mudar a partir de 2028.
Em março deste ano, um decreto determinou que o exame também seja utilizado para avaliar o aprendizado dos estudantes ao final do ensino médio, em integração com o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Atualmente, o Enem é conhecido principalmente como porta de entrada para o ensino superior.
As notas são utilizadas em programas como o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), Programa Universidade para Todos (Prouni) e Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Essa função continuará existindo.
A novidade é que os resultados também deverão ser utilizados para produzir diagnósticos sobre a educação básica, acompanhar desigualdades educacionais e avaliar o cumprimento de metas de aprendizagem.
Segundo o Inep, o novo exame deverá estar alinhado à Base Nacional Comum Curricular e à Política Nacional do Ensino Médio.
MUDANÇA NÃO VALE PARA QUEM FARÁ ENEM AGORA
Para os estudantes que estão se preparando para o Enem de 2026, a discussão não altera a prova deste ano.
A mudança é estudada para 2028 e ainda depende da conclusão das discussões técnicas e das decisões que serão tomadas pelo Inep e pelo Ministério da Educação.
Isso significa que candidatos não devem abandonar a preparação para o atual modelo de redação com base na proposta divulgada.
Até que uma alteração seja oficialmente aprovada e regulamentada, permanece o formato vigente.
PROPOSTA DEVE SER FINALIZADA ATÉ O FIM DO ANO
Questionado pela Folha, o Inep afirmou que trabalha em conjunto com especialistas e com o Ministério da Educação na construção do modelo previsto para 2028.
O instituto informou que ainda não existe uma decisão final sobre os pontos específicos da implementação, mas confirmou que a proposta preliminar deverá ser discutida e finalizada até o fim de 2026.
A definição será importante principalmente para escolas, professores e estudantes, já que uma mudança dessa dimensão poderá exigir adaptações na preparação para o exame.
Se o formato avançar nos termos atualmente discutidos, preparar-se para a produção textual no Enem poderá deixar de significar apenas estudar a estrutura de uma dissertação sobre um grande tema social e passar a envolver a capacidade de explicar, argumentar e desenvolver raciocínios por escrito em diferentes áreas.
REDAÇÃO DO ENEM JÁ VINHA SENDO DISCUTIDA
A possível reformulação ocorre depois de outra discussão envolvendo a redação do exame.
Na edição de 2025, estudantes e professores relataram à Folha a percepção de notas mais baixas.
O Inep negou ter alterado os critérios de correção.
Na ocasião, o instituto apontou, entre as possíveis explicações, a utilização cada vez mais frequente de modelos prontos e dos chamados “repertórios de bolso” — referências genéricas e memorizadas que podem ser encaixadas em diferentes assuntos sem uma relação consistente com o tema proposto.
Segundo o Inep, esse tipo de utilização já poderia ser penalizado anteriormente, mas sua disseminação tornou a questão mais relevante durante a correção.
Agora, a discussão é mais ampla e envolve a própria estrutura da produção escrita no exame.
O ponto principal para estudantes e famílias, neste momento, é distinguir proposta de decisão: o Inep estuda um modelo com 50 linhas distribuídas por quatro áreas para 2028, mas ainda não definiu que esse será efetivamente o formato adotado.

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